'Países párias' vetam na ONU controle de armas

Oposição de Irã, Síria e Coreia do Norte impede adoção de tratado inédito das Nações Unidas para impor regras ao comércio global de armamento

NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2013 | 02h04

O Irã, a Coreia do Norte e a Síria impediram ontem a adoção de um inédito acordo das Nações Unidas impondo mecanismos de controle sobre o comércio mundial de armas - negócio que movimenta anualmente US$ 70 bilhões. ONGs lamentaram profundamente o fracasso dos diplomatas. Para ser aprovado, o texto precisava do apoio de todos os 193 membros da ONU.

O embaixador da Austrália, Peter Woolcott, que presidia a sessão em Nova York, suspendeu os debates quando os representantes de Teerã, Damasco e Pyongyang indicaram que votariam contra a adoção do tratado. Tentou-se convencer os países a recuar, mas depois que os três reafirmaram sua negativa Woolcott deu a conferência por encerrada, afirmando que "não houve consenso para aprovar o texto este ano".

Defensores do tratado afirmam que ele era a mais ambiciosa tentativa de frear a proliferação de armas ilegais, que alimentam conflitos irregulares e o aumento da violência urbana em todo mundo. Um acordo poderia prever mecanismos para rastrear armamento, além de maior transparência nas transações globais.

ONGs internacionais que acompanharam a votação afirmaram que tentarão levar o projeto de resolução à Assembleia-Geral da ONU, onde devem conseguir facilmente a maioria de dois terços necessária para aprová-lo. Mas diplomatas apontam que a medida terá maior peso caso seja adotada por consenso.

O clima até o começo da tarde de ontem era de forte otimismo e a expectativa era a de que o acordo histórico fosse anunciado até o fim do dia - prazo final da negociação. Rússia, China e Índia, que mantinham restrições quanto à linguagem adotada, indicaram que não se oporiam ao consenso.

Lobby das armas. O embaixador do Irã na ONU, Mohamed Khazaee, disse que o rascunho apresentado tinha brechas e era "altamente suscetível a politização e discriminação". O emissário de Teerã disse ainda que o texto ignora as "demandas legítimas" de proibir a transferência de armamento aos que cometem as agressões. "Como podemos reduzir o sofrimento humano fazendo vista grossa às agressões que custam a vida de centenas de milhares de pessoas?"

A Síria temia que um acordo desse tipo limite seus canais de suprimento de armas. O regime de Bashar Assad está envolvido em uma guerra civil que, em dois anos, já deixou mais de 70 mil mortos, segundo a ONU.

Uma das maiores ameaças ao tratado não vinha de países considerados "párias internacionais", mas de dentro dos EUA. A National Rifle Association, poderosa representante do lobby armamentista, opôs-se ao tratado, mas o governo Barack Obama - comprometido em adotar em casa medidas para o controle de armas - decidiu apoiar o acordo global. Mas a Casa Branca indicou que não comprometeria os direitos de cidadãos americanos de comprar e portar armas. / AP e REUTERS

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