Robin VAN LONKHUIJSEN / ANP / AFP
Robin VAN LONKHUIJSEN / ANP / AFP

Países tentam afrouxar rigor da quarentena sem sucesso

Nações que hesitaram em adotar medidas de isolamento social, como Reino Unido, Austrália e Países Baixos, adotaram nova abordagem

Redação, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2020 | 09h35

Enquanto pelo menos 1,7 bilhão de pessoas iniciaram esta semana em quarentena contra o coronavírus - e o número continua crescendo -, o presidente americano, Donald Trump, afirmou que pode flexibilizar algumas orientações do governo federal para o isolamento social e o confinamento. O objetivo é fazer as lojas abrirem novamente, em uma medida que desafia especialistas em saúde pública e até governadores como o da Califórnia e o de Nova York, que decidiram pelo fechamento de seus Estados. 

"Os Estados Unidos estarão novamente abertos para negócios em breve, muito em breve", disse Trump na coletiva de imprensa diária da Casa Branca. "Não podemos deixar que a cura seja pior que o próprio problema". 

Em outros países de diferentes regiões, a perspectiva é de que o número de pessoas confinadas cresça com o passar dos dias. Até mesmo nações que rejeitavam a possibilidade de adotarem mais restritivas de isolamento têm revisto esse posicionamento no momento em que a pandemia já atinge mais de 350 mil pessoas e deixou mais de 15 mil mortos. 

É o caso dos Países Baixos, cujo governo anunciou na segunda que vai estender de abril para junho a proibição de encontros com mais de 100 pessoas. Agora, a polícia vai poder dispersar grupos de mais de três pessoas e aplicar multas - de 400 euros para indivíduos e de 4.000 para empresas - para fazer valer a lei. O país tem 4.749 casos e teve 213 mortes. 

Na semana passada, o primeiro-ministro Mark Rutte havia dito que tal tipo de abordagem era muito rigorosa. Rutte defendeu a ideia de que os holandeses deveriam adquirir “imunidade coletiva” ao coronavírus - quanto mais pessoas infectadas, mais habitantes estariam imunes e menor a chance de contágio. 

Um país que tem desafiado as recomendações de isolamento social e quarentena da Organização Mundial da Saúde (OMS) é o Japão. Apesar disso, eventos esportivos foram cancelados, escolas e os principais locais de entretenimento, fechados. Mas a vida continua normal, sem quarentena nem fechamento obrigatório de bares, restaurantes ou clubes. 

O primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, havia decidido inicialmente que aulas nas escolas ficariam suspensas até o fim da primavera, mas decidiu que as escolas voltam à ativa em abril. O país tem 1.630 casos, com 41 mortes. A população total é de 125 milhões de pessoas. A decisão de Abe encontra amparo em dados do governo mostrando que até agora o Japão havia evitado um surto de infecções. Apesar disso, as Olimpíadas de Tóquio ocorrerão - com maior probabilidade em 2021 do que em quatro meses, como previsto inicialmente. 

No Reino Unido, até a semana passada, centenas de escolas eram contrárias à ideia de fechar. O governo britânico foi um dos que mais resistiu a fechar escolas, mas tomou a decisão de fazê-lo. Na segunda, afirmou que o vírus era a maior ameaça que o país enfrentou em décadas e que vem causando um “impacto devastador”. O país tem 6.650 casos e 335 mortes.  Agora, o Reino Unido prepara um projeto de lei sobre poderes extraordinários para lutar contra o coronavírus. "Vocês não devem se encontrar com amigos, se chamarem para sair, digam que não", recomendou. 

A Austrália, que vinha adotando medidas pouco restritivas, fechou na segunda clubes, locais de entretenimento, espaços religiosos e proibiu eventos esportivos. Apesar disso, as escolas vão continuar funcionando no país. Já foram infectados mais de 1.600 habitantes. "Os australianos vivem com esse vírus há seis meses, pode ser até mais. Não se pode fechar tudo em três ou quatro semanas pelo que aconteceu", afirmou o primeiro-ministro Scott Morrison. O país proibiu a chegada de turistas estrangeiros na semana passada.

A vizinha Nova Zelândia foi mais enfática e decidiu fechar até o fim desta semana estabelecimentos não essenciais - entre os quais as escolas. "Essas decisões supõem a maior restrição de movimentação dos neozelandeses da história moderna", disse Jacinda Ardern, a primeira-ministra do país. Estrangeiros também não podem entrar no país, que tem 112 casos.

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País de 364 mil habitantes, a Islândia está testando o maior número de pessoas, inclusive aquelas que não apresentam sintomas de covid-19. A nação já verificou, proporcionalmente, mais gente do que qualquer outro país. "A população coloca o país na posição única de ter recursos de testes muito altos", disse Thorolfur Guðnason, epidemiologista chefe da Islândia, em entrevista ao BuzzFeed News. 

Ele explica que os testes revelaram que uma porção importante dos pacientes que adquiriram a doença tinham sintomas leves ou nenhum tipo de alteração no seu dia a dia. Os dados confirmam evidências de que indivíduos assintomáticos contribuem para espalhar a doença. / AP, Reuters, AFP e The Washington Post

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