Países vizinhos temem onda de refugiados iraquianos

Uma das tragédias da primeira guerra contra o Iraque, a Guerra do Golfo, em 1991, foi a desestabilização da população. Assustados, reduzidos a nada, esfomeados, osiraquianos - ou melhor, não iraquianos morando no Iraque:palestinos, iranianos, etc., etc. - se viram andando às cegaspara fugir do inferno. Miríades de homens e famílias saíram da zona do Golfo e encontraram refúgio nos países vizinhos.A Jordânia, reino minúsculo e frágil, absorveu uma grandeparte desses refugiados: um milhão, entre 300 mil palestinos que viviam no Iraque, e que a Jordânia não podia refutar. A maioria dos jordanianos, de fato, é de origem palestina. A guerra de George W. Bush não deve provocar um êxodo tão monumental.O Programa Alimentar Mundial (PAM) espera que 900 mil pessoas que vivem no Iraque deverão fugir do país e tentar entrar nos Estados vizinhos (Jordânia, mas também Turquia, Irã, Kuwait). As previsões do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) são mais brandas. Eles prevêem 600 mil refugiados.A maior parte dos países limítrofes com o Iraque não sepronunciam sobre esta questão. Compreende-se: eles têm medo de, com suas declarações muito generosas, atrair hordas de refugiados. Mesmo assim, discretamente, eles se preparam para qualquer eventualidade.A maior parte deles construiu campos próximos das fronteiras, convencidos de que será pior ter massas de pessoas andando desordenadamente pelo país sem que alguém os fixe, os canalize e os ordene.O Kuwait preparou a construção de um campo na zona tampão, vigiada pela ONU, que o separa do Iraque. A Turquia, de seu lado tem planos de absorver 80 mil iraquianos nos seis campos instalados em seu solo.A Jordânia, depois de dizer que não aceitaria ninguém, mudou seu discurso com a proximidade da guerra. Seu ministro de Relações Exteriores, Marwan Moasher, disse: "Vamos nos render à nossa responsabilidade humanitária. Não podemos deixar essa gente morrer. Mas nossa capacidade de absorção é limitada". Uma das maiores preocupações da Jordânia: que 100 mil palestinos,com domicílio no Iraque, peçam asilo à Jordânia. Se issoacontecer, um problema político grande será acrescentado aoproblema simplesmente econômico.Dois campos estão preparados há meses na Jordânia. Não é um assunto de pequena monta. O país tem problemas com água.Para encontrá-la, é preciso procurar 400 metros sob a terra.Em seguida, é necessário bombeá-la. As tendas serão montadas à medida que as pessoas forem chegando. Entrepostos de alimentos são previstos.No Irã, espera-se o maior fluxo de refugiados: cerca de 250mil.Imagina-se que a recepção e a alimentação dessas centenas de milhares de refugiados vindos do Iraque originarão despesas gigantescas. Ora, por hora, os dois organismos internacionais encarregados de gerir esse drama estão simplesmente pobres.Para a Jordânia, por exemplo, o Acnur dispõe apenas de US$ 17 milhões. O PAM, não mais que US$ 8 milhões.É preciso que as instituições internacionais, como a ONU, asongs e os governos encontrem fontes de financiamento novos se querem evitar um desastre humano. A ONU, que foi humilhada e descartada da decisão da guerra, reencontrará nessa tarefa sua necessidade e sua honra. Mas, entre os eventuais doadores, há o caso dos países que sempre foram contra a guerra no Iraque.Esses países, segundo o Acnur, serão muito reticentes.Espera-se que o Acnur esteja enganado. Não será um erro e uma vilania se os países hostis à guerra se negarem a dar ajuda às vítimas dessa guerra?

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