Paixão chinesa pelos heróis de Hollywood

Pequim joga duro contra 'valores ocidentais' em livros didáticos, mas abraça símbolos americanos

NATHAN GARDELS, MIKE MEDAVOY, GLOBAL VIEWPOINT

08 Março 2015 | 02h01

As autoridades educacionais da China lançaram recentemente uma campanha para conter o ensino de "valores ocidentais" em universidades por meio de fontes primárias que promovam a liberdade individual, o estado de direito, uma sociedade civil independente e a desconfiança da autoridade política. Mas multidões de espectadores chineses continuam assistindo a filmes de Hollywood como Capitão América, Transformers, Jogos Vorazes ou Homem Aranha que, em sua mensagem fundamental, transmitem, mesmo que só incidentalmente, os mesmos valores ocidentais que as autoridades censuradoras estão tentando expurgar do currículo oficial.

Terá passado despercebido dos baluartes do Partido Comunista que os memes subversivos de liberdade individual, grupos da "sociedade civil" auto-organizados e antiautoritarismo são bem mais disseminados por filmes de Hollywood do que por manuais didáticos? Se uma imagem vale mil palavras, um filme blockbuster vale certamente alguns manuais. E o mesmo ocorre com os programas de TV americanos tão populares na China, de House of Cards a NCIS e ao drama legal The Good Wife - Pelo Direito de Recomeçar.

Os que se recordam da Revolução Cultural e da propaganda onipresente que construiu o culto à personalidade de Mao Tsé-tung sabem que quem controla a narrativa influencia a sociedade. Como Platão observou há muito tempo, "Os que narram as histórias dirigem a sociedade".

Mas será que eles não percebem que os frequentadores de cinema comuns de classe média ou espectadores de TV numa sociedade de massa acreditam numa narrativa não tanto por uma ponderação serena de ideias quanto pela imagem com a qual se identificam emocionalmente e querem ser associados? Não será por isso que o rosto de Brad Pitt pode ser visto em outdoors por toda Xangai vendendo Cadillacs? A visão de mundo de uma pessoa é construída mais pelo lado emocional do que pelo racional, pelo que funciona para ela metaforicamente. E metáfora é o oficio do cinema. As imagens são a moeda de seu universo.

As imagens governam os sonhos e os sonhos governam as ações. A verdadeira mensagem que preocupa as autoridades da China - o indivíduo ou grupos da "sociedade civil" não governamentais enfrentando as autoridades e o poder - está entranhada na linguagem de Hollywood de O Grande Ditador de Charlie Chaplin.

Apesar de O Federalista tratar de divisão de poderes, um Judiciário independente e eleições populares, ele ao menos respeita a autoridade política (Thomas Jefferson era um admirador de Confúcio). Mas, para Hollywood, zombar da autoridade política, ou combatê-la, é uma metáfora que agrada ao público consagrada pelo tempo.

Quando se sai de um cinema de Pequim e se lê as notícias do Diário do Povo sobre camponeses em alguns vilarejos perdendo novamente suas terras para autoridades corruptas, de que outra forma interpretar Avatar senão como um apelo para as pessoas enfrentarem a ganância de empreiteiros respaldados pelo Estado que estão arruinando o meio ambiente? Com frequência, a mensagem mais subversiva é incidental. No início dos anos 60, quando executivos de Hollywood visitaram Jacarta, o então presidente indonésio Sukarno lhes disse: "Eu os vejo como radicais e revolucionários políticos que aceleraram grandemente a transformação política no Leste". E explicou o que queria dizer naqueles dias em que o Leste Asiático era em grande parte subdesenvolvido: "O que o Oriente vê num filme de Hollywood é um mundo em que pessoas comuns têm carros e fogões elétricos e geladeiras. Por isso, o Oriental se vê como uma pessoa comum que foi privado do direito de nascença da pessoa comum."

Como o sociólogo da mídia Manuel Castells observou, aventurar-se em outra realidade através do cinema "não deixa de ter um custo". Vislumbrar uma realidade alternativa pode instigar a inovação ("Quero viver dessa maneira") ou provocar uma reação ("Essa maneira de viver é perigosa e uma ameaça ao meu modo de vida"). Certamente, essa percepção é responsável pela mescla estranha e elusiva de amor e ódio que a cultura americana de massa evoca em todo o mundo.

Neste sentido, os filmes exercem poderosa influência. Ainda que o poderio americano esteja em declínio em outros aspectos, e por mais que a indústria cinematográfica esteja se tornando influente, o poder brando dos filmes de Hollywood, com sua sedução, ainda reina em todo o globo (com a exceção de Bollywood, na Índia).

De fato, Hollywood está se tornando mais global a fim de prosperar - em grande parte porque a TV, até mesmo a cabo, está tirando o público doméstico dos cinemas.

A China já é o segundo maior mercado de Hollywood depois dos EUA e deverá se tornar o maior mercado mundial até 2020. "Em geral, 50% do total da bilheteria de um filme era arrecadado nos EUA e no Canadá, mas isso já não acontece", disse a USCNews. Stan Rosen, especialista em política chinesa e na relação entre Hollywood e a China. "Ela caiu para 30-35%. Agora, um filme de sucesso conseguirá 70% do seu retorno fora da América do Norte."

Segundo Rosen: "A China passou o Japão como segundo maior mercado de filmes, depois da América do Norte, em 2012. Em 2013, o faturamento de bilheteria da China foi de US$ 3,6 bilhões - um aumento de 27% em relação ao ano anterior. Em 2014, as vendas de ingressos da China chegaram a US$ 4,8 bilhões. Ele calcula que, nos próximos dez anos, a China superará a América do Norte como maior mercado cinematográfico.

Na realidade, o mundo do entretenimento como um todo está se tornando mais integrado em termos globais. A segunda maior rede de cinemas do mundo, a AMC, pertence a uma companhia chinesa.

A Disney deixou de ser a fábrica por excelência da América convencional, mas é uma companhia global que conta com a China para seu impressionante faturamento, não só com filmes como Frozen, mas com parques temáticos como o que será inaugurado em Xangai.

Graças a ferramentas computadorizadas cada vez mais sofisticadas com um custo muito menor, até realizadores menores, independentes, estão se tornando globais, reunindo talento e capacidade técnica de todas as partes do mundo com o objetivo de obter a possibilidade de comercialização international. Um bom exemplo é o curta de ficção científica Atropa, do americano Eli Sasich, que usou artistas de storyboard de toda a Europa e Canadá, com efeitos visuais feitos na Alemanha, associando-se a companhias de produção com sede na Nova Zelândia, que trabalham para transformar o curta em longa de maneira a atrair públicos de todas as partes do mundo - como na China.

Por enquanto, a China limita a importação de filmes a 34 por ano - 14 dos quais devem ser IMAX ou 3D - com possibilidades infinitas de exposição quando um filme é produzido em associação com um parceiro chinês. A China constrói nada menos que 13 novos cinemas por dia.

Esta relação cada vez mais estreita do entretenimento atua num mercado global criado pelo comércio, pelo alcance planetário da mídia e a difusão da tecnologia. É neste novo espaço de poder que as imagens competem e as ideias são contestadas; é onde corações e mentes são conquistados ou perdidos e onde a legitimidade se estabelece.

A integração da China no mercado global está indissoluvelmente ligada à sua modernização. Como o próprio presidente Xi Jinping reconhece: "Quanto mais a China se desenvolver, mais aberta ela se tornará. É impossível que a China feche a porta que já foi aberta".

Apesar desta promessa do topo do poder, os defensores da ideologia mudarão seu foco, mais cedo ou mais tarde, para limitar ainda mais os filmes, os programas de TV e os textos ocidentais?

A China alcançou o topo da economia global. O governo tem sido benéfico para seu povo nos últimos 30 anos, tirando centenas de milhões de pessoas da pobreza. Sua civilização nascida há 4 mil anos sobreviveu à maioria dos antigos impérios do mundo ocidental e de outras partes. Evidentemente, uma civilização com tamanha capacidade de resistência poderá absorver o que quiser do Ocidente moderno e deixar o restante.

Mas se o presidente Xi quiser sinceramente que a China não feche a porta ao mundo, não deve procurar controlar as informações às quais seu povo está exposto. Afinal, não se pode "buscar a verdade dos fatos" quando as autoridades censuram a realidade da interdependência global de hoje e dos fluxos de informação que se polinizam reciprocamente.

Os dias da Revolução Cultural de uma cadeia de informações autárquica fechada, quando o Partido Comunista podia ditar a história de uma sociedade empobrecida e isolada, acabaram na China. Acreditar o contrário implicará enfraquecer os próprios vínculos com o restante do mundo que permitiram à China tornar-se a potência mundial cada vez mais próspera que ela é hoje. / Tradução de Anna Capovilla e Celso Paciornik

* Gardels é editor e escritor; Medavoy é produtor de filmes americanos

Mais conteúdo sobre:
O Estado de S. Paulo

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.