Palavras vazias do Ocidente sobre a Costa do Marfim

Como se verificou antes, as crises na África costumam expor a limitação da força de vontade internacional

Simon Tisdall, The Guardian, O Estado de S.Paulo

29 de dezembro de 2010 | 00h00

Ao abordar a crise que se agrava na Costa do Marfim, líderes da União Europeia foram firmes. O legítimo vitorioso nas eleições presidenciais de novembro tem de assumir o cargo e seu predecessor derrotado deve se retirar sem mais rodeios, eles declararam em seu recente encontro de cúpula em Bruxelas.

Claro que Laurent Gbagbo, o homem forte da Costa do Marfim, recusa-se a deixar o poder e não tomou conhecimento das demandas . Protestos de parte do presidente francês, Nicolas Sarkozy, que qualificou de "escandalosa" a crise na ex-colônia francesa, dos Estados Unidos, da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental e da União Africana, também foram ignorados.

O mais perigoso é que as Nações Unidas, que mantêm uma missão de paz de 10 mil soldados na Costa do Marfim, receberam ordens de sair imediatamente do país. O secretário-geral Ban Ki-moon insiste que a missão de paz permanecerá ali. Mas até onde vai sua certeza de que os soldados conseguirão se manter na Costa do Marfim?

E neste caso, que apoio prático da comunidade internacional (e do impotente presidente eleito da Costa do Marfim, Alassane Ouattara, e seus partidários) Ban poderá contar de fato se as coisas realmente piorarem? Não muito, é a resposta desagradável. Como se verificou quando de insurreições no passado, as crises na África Ocidental costumam expor as limitações de jurisdição, governança e da força de vontade internacionais e, possivelmente, o princípio do dois pesos e duas medidas aplicado a esta parte do mundo, comparado, por exemplo, ao "mais importante estrategicamente" Oriente Médio.

A intervenção britânica na guerra civil em Serra Leoa, em 2000, para socorrer tropas da ONU nigerianas cercadas, foi inusitada. Mais típico ainda foi o que ocorreu quando a guerra civil na Libéria chegou a seu ápice, com os rebeldes ameaçando tomar a capital , Monróvia, em 2003. Uma poderosa força-tarefa naval dos EUA ficou estacionada na costa, com ordens para não se imiscuir, política ou militarmente.

Um relatório recente elaborado pelo representante especial da ONU para a África Ocidental, Said Djinnit, sublinha os desafios à governança e à segurança em países que são completamente ignorados pelo Ocidente. Ele citou o caso de Níger, onde um conselho militar no poder dissolveu o governo e deteve o presidente no início do ano, e ainda a Mauritânia, Togo e Guiné Equatorial, países que requerem um maior engajamento internacional se quisermos que a governança democrática sobreviva.

A resistência aberta de Gbagbo representa desafios simbólicos e de ordem prática. A União Africana ou outros intervirão pela força se ele insistir em se manter no poder? Até agora, apenas o Quênia defendeu uma ação militar. Mas seu premiê, Raila Odinga, admite que a UA "não tem força", uma verdade evidente, por exemplo, na Somália.

A julgar pelo passado, EUA e a Otan vão se manter afastados. A União Europeia, apesar das palavras duras e de sua força de reação rápida, aparentemente tem pouca disposição para se aventurar na região. Assim, teoricamente, resta apenas a potência colonial, a França.

Mas a política francesa mudou desde a era intervencionista, nas décadas de 80 e 90. Como a Grã-Bretanha, hoje a ênfase dos franceses é nos negócios e no comércio. O poder armado de Paris encolheu. Até o momento, Sarkozy evitou falar de ação militar, ameaçando apenas com sanções.

Isso pode mudar, mas somente se, como ocorreu durante a guerra civil de 2001-2003, a comunidade francesa de 15 mil pessoas que tem negócios na Costa do Martim, e os substanciais investimentos de 600 empresas francesas instaladas no país, forem ameaçados. Manter 900 soldados no país e não fazer nada, seria uma vergonha. Mas se envolver numa guerra civil sem vencedores é uma perspectiva ainda menos edificante.

O resultado, no momento, é que a missão das Nações Unidas enfrenta uma crise na Costa do Marfim de grandes proporções e potencialmente perigosa e não se sabe quem vai ajudar. Pior, essa crise era evitável. E mesmo que o desastre seja evitado desta vez, cedo ou tarde uma rebelião similar deverá ocorrer.

É necessário criar um mecanismo internacional permanente e consensual, liderado por africanos, para tratar e reverter essas usurpações caóticas, ao estilo da Costa do Marfim, que há muito tempo afligem os povos da África Ocidental. Sem o poder para corroborar as belas palavras com uma ação firme, não há muito sentido em se falar interminavelmente de boa governança, democracia e Estado de direito. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É COLUNISTA

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