Palco do bicentenário espelha crise argentina

Praça escolhida para comemorar 200 anos de independência mostra decadência portenha

Ariel Palacios, BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

23 Maio 2010 | 00h00

A Argentina comemorará em dois dias o bicentenário da Revolução de Maio, que marcou o início de seu processo de independência. A Avenida de Mayo - que há um século pretendia imitar o Champs Elysées de Paris, mostrando a pujança argentina - hoje é um microcosmos das crises políticas e econômicas que assolaram a Argentina nas últimas décadas.

Nos primeiros cem anos de vida independente, a Praça de Mayo foi palco de cerimônias oficiais e via elegante para os plácidos pedestres. Mas, no segundo século, se transformou no centro de manifestações sociais. É o lugar do protesto semanal das Mães e Avós da Praça de Mayo, que reivindicam saber o paradeiro dos 30 mil desaparecidos da ditadura militar (1976-1983). Veteranos da Guerra das Malvinas (1982), acampam há meses na praça, pedindo maiores pensões.

Ali, em 2001, no meio do caos econômico, a polícia matou 20 pessoas que exigiam a renúncia do presidente Fernando De la Rúa. Por golpes de Estado ou crises políticas e econômicas, a praça assistiu constante troca de presidentes. Em 1930, um grupo de cadetes comandado pelo general Félix Uriburu atravessou a praça e derrubou o governo do presidente civil Hipólito Yrigoyen. De lá para cá, somente três presidentes eleitos conseguiram concluir seus mandatos.

Em 1910, todos os ex-presidentes argentinos ainda vivos estavam presentes nas celebrações do centenário. Nas cerimônias de 2010, evidenciando os profundos antagonismos políticos, nenhum ex-chefe de Estado estará presente, exceto o ex-presidente Néstor Kirchner, marido da presidente Cristina Kirchner.

Cafés e hotéis. O Café Tortoni, no número 825 da Avenida de Mayo, foi o ninho da intelectualidade argentina durante décadas. Por suas mesas passaram personalidades como o escritor Jorge Luis Borges, o pianista polonês Arthur Rubinstein e o filósofo espanhol José Ortega y Gasset.

Celebridades também iam ao Hotel Castelar, moradia do poeta espanhol Federico García Lorca durante um ano e meio na década de 30, quando usou a cidade como quartel-general para conferências na região. Perto dali está o antigo Hotel Majestic, onde residiu a estrela do balé mundial Vaslav Nijinsky. Hoje, o Tortoni e o Castelar vivem dos turistas estrangeiros. O Majestic tornou-se repartição pública. A intelectualidade internacional não considera mais Buenos Aires um ponto de visita.

Quando em 1922 a União Industrial Argentina (UIA) instalou-se no edifício da Avenida de Mayo número 1147, o país representava 50% do PIB latino-americano. Um ano depois, a duas quadras dali, o italiano Luigi Barolo, imigrante que "havia feito a América", tornando-se o maior empresário têxtil da Argentina, inaugurava o Pasaje Barolo, o edifício mais alto da América Latina, com cem metros de altura. O empresário, que tinha nesse edifício a sede de sua empresa, sonhava em enterrar ali o corpo do poeta italiano Dante Alighieri. A empresa de Barolo desapareceu e a UIA não passa, atualmente, de um aglomerado de pequenas e médias empresas privadas que constantemente pedem medidas protecionistas ao governo Kirchner. Já o PIB argentino não representa hoje mais de 10% do total regional.

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