AFP PHOTO / Jack GUEZ
AFP PHOTO / Jack GUEZ

Ao menos 16 palestinos morrem em confrontos com soldados israelenses em Gaza

Cerca de 30 mil manifestantes se reuniram em diversos pontos da divisa para protestar contra pobreza, falta de energia elétrica e fronteiras fechadas; israelenses afirmam que soldados dispararam após lançamento de pedras e de coquetéis molotov

O Estado de S.Paulo

30 Março 2018 | 02h30
Atualizado 30 Março 2018 | 19h59

GAZA - Ao menos 16 palestinos morreram e cerca de 2 mil ficaram feridos em confrontos com soldados israelenses na fronteira de 62 quilômetros entre a Faixa de Gaza e Israel nesta sexta-feira, 30, durante o protesto chamado Grande Marcha do Retorno, apoiada pelo grupo islamista Hamas, e em comemoração ao Dia da Terra. Os israelenses dizem que dispararam após o lançamento de pedras e coquetéis molotov por manifestantes ligados ao Hamas. 

+ Funcionário do consulado francês é detido em Israel por contrabando de armas

+ Explosão contra comboio do premiê palestino deixa 7 feridos em Gaza

A versão dos palestinos é diferente. De acordo com o Ministério da Saúde em Gaza, o agricultor Omar Samur, de 27 anos, foi a primeira vítima. Ele foi morto por disparos de artilharia de Israel no início da manhã, antes mesmo do início da manifestação, quando trabalhava na lavoura. Um companheiro dele ficou ferido. O Exército de Israel disse que dois “suspeitos” se aproximaram da barreira e atiraram contra os soldados, então tanques israelenses dispararam em sua direção.

Os outros 15 palestinos, todos manifestantes, morreram em confrontos com o Exército israelense em diferentes áreas da fronteira. Um deles foi baleado na barriga em Jabaliya, ao norte de Gaza, e dois foram atingidos na cabeça em Rafah, ao sul da região. O Crescente Vermelho identificou mais de 350 manifestantes feridos por tiros de soldados israelenses na fronteira.

 

+ Israel aprova lei que permite reter corpos de palestinos por tempo indeterminado

+ Israel responde a explosão que atingiu soldados com bombardeios em Gaza

O Exército de Israel disse que seguiu o protocolo e respondeu com bombas de gás lacrimogêneo e munição real contra as milhares de pessoas que tentavam danificar a barreira em seis pontos da fronteira. Israel acusou militantes de usarem a manifestação para cometer ataques. Uma das preocupações dos israelenses é que o protesto seja uma tentativa, espontânea ou não, de forçar a cerca da fronteira. No começo da semana, Israel havia ordenado o fechamento total da fronteira por uma semana na Páscoa judaica.

Os protestos reivindicam o “direito ao retorno” dos milhares de palestinos que foram expulsos de suas terras ou fugiram da guerra que começou após a criação de Israel, em 1948. O Dia da Terra homenageia seis árabes-israelenses que morreram em 1976 durante manifestações contra o confisco de terras por Israel. 

A grande manifestação, prevista para durar ao menos seis dias, também é uma demonstração do desespero dos moradores da Faixa de Gaza em razão do cerco de mais de uma década e da deterioração das condições de vida. 

Cenário

A estudante de história Asmaa al-Katari disse que estava participando da marcha, apesar dos riscos, “pois a vida é tão difícil em Gaza que a população não tem mais nada a perder”.

Organizada oficialmente pela sociedade civil, a Marcha do Retorno é apoiada pelo Hamas, que governa a Faixa de Gaza desde 2007. O grupo travou contra Israel três guerras no enclave palestino desde 2008. Desde 2014, os dois lados tentam manter um cessar-fogo. 

O Exército de Israel, que usou um drone para lançar gás lacrimogêneo, disse que os palestinos “estavam protestando violentamente na Faixa de Gaza. Eles atearam fogo em pneus e lançaram bombas e pedras nos agentes de segurança”. As tropas “responderam com meios de dispersão e disparos contra os principais instigadores”. Segundo nota do Exército de Israel, “a organização terrorista Hamas coloca em perigo a vida das pessoas de Gaza e as usa para camuflar suas atividades terroristas”.

Enquanto o Estado de Israel celebrará em maio seu 70.º aniversário, os palestinos ainda aguardam a criação de seu Estado. O direito ao retorno dos refugiados continua sendo uma exigência fundamental dos palestinos e, para os israelenses, um grande obstáculo à paz.

O status de Jerusalém também é um ponto importante de tensão, principalmente desde que o presidente dos EUA, Donald Trump, decidiu reconhecer a cidade como a capital de Israel e transferir a embaixada americana para lá. A decisão enfureceu os palestinos, que querem fazer de Jerusalém Oriental, anexada por Israel, a capital do Estado a que aspiram.

Reações. Vários países da região condenaram a violenta repressão de Israel contra uma manifestação na Faixa de Gaza que reuniu entre 17 mil pessoas, segundo o Exército de Israel, e até 40 mil, segundo observadores locais. Centenas de crianças estavam com os pais na manifestação. Os organizadores montaram grandes tendas a 700 metros da fronteira e prometeram comida e água grátis para manter a presença de centenas de pessoas até o dia 15, quando os palestinos lembram a “nakba” (catástrofe), que marca o início da desapropriação e o exílio de palestinos após a criação do Estado de Israel, em 1948. 

O Conselho de Segurança da ONU marcou uma reunião de emergência para ontem mesmo, a pedido do Kuwait, para debater sobre o incidente. A ONU já havia alertado que a Faixa de Gaza está à beira do colapso econômico e de serviços em razão do bloqueio que já dura mais de uma década. O desemprego entre os 2 mil moradores do enclave é de 50%. A porcentagem é maior entre os jovens.

O governo do Egito, que também mantém bloqueada sua fronteira com a Faixa de Gaza, condenou o uso excessivo de força e pediu a ambas as partes que mantenham moderação. A Jordânia também condenou o “uso de força excessiva contra o povo palestino desarmado” e advertiu que isso pode alimentar “o extremismo e a violência na região”. / AFP, EFE, REUTERS, AP e W.POST

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.