Marco Longari/AFP
Marco Longari/AFP

Palestinos duvidam que adesão mude o dia a dia

Autoridade Palestina reafirma que pedirá status de membro pleno da ONU, mas moradores da Cisjordânia questionam efeitos práticos da iniciativa

Viviane Vaz, O Estado de S.Paulo

18 Setembro 2011 | 00h00

ESPECIAL PARA O ESTADO / RAMALLAH

Depois das preces de sexta-feira, os palestinos correram para a TV em busca de alguma pista sobre a estratégia de seus líderes para a próxima semana. Frustraram-se. O presidente Mahmoud Abbas anuncia há meses que submeterá uma proposta de reconhecimento da Palestina na ONU, mas nas ruas de Ramallah e Belém ainda não se sabe quais serão os resultados práticos de ser um Estado.

"Não tenho ideia do que ocorrerá, o governo não explicou nada. Mas minha vida não pode ficar pior", diz a economista recém-formada Sofia Hasan, de 22 anos. "Minha preocupação maior agora é a mesma de muitos jovens palestinos: arrumar trabalho e seguir em frente."

Em rede nacional, Abbas prometeu apresentar o pedido de adesão plena de um Estado palestino à ONU na sexta-feira. "Fazer esse pedido agora não acrescenta nada, pois já declaramos a independência em 1988. É um círculo que se repete", reclama Ayat Alnoor, de 21 anos, estudante de comunicação da Universidade Birzeit, em Ramallah. "Ficamos esperamos a atuação das Nações Unidas, quando deveríamos ter trabalhado internamente pelo fim da ocupação israelense."

O bibliotecário Saad Amer, de 46 anos, também não espera nada de "grandioso" para a próxima semana. De acordo com ele, a decisão de fazer petições à comunidade internacional deveria ser fruto de uma discussão entre os cidadãos palestinos e seus líderes. "As pessoas estão frustradas. Nós ainda não sabemos qual é o plano, o que ganharemos e o que perderemos. Ninguém nos disse nada."

Alguns palestinos temem perder o direito de retorno dos refugiados, o fim do status de observador da Organização para Liberação Palestina (OLP) na ONU e até mesmo ficar sem Jerusalém. "Com certeza ficaremos felizes se a ONU aceitar o Estado palestino. Por outro lado, pode ser que prejudique nosso direito de retorno", afirma o comerciante Ahmad J., de 35 anos.

Ainda não está claro se o Estado palestino, na condição de não membro da ONU, poderia representar os palestinos refugiados em outros países (sobretudo no Líbano, Síria e Jordânia), como o faz agora a OLP. Durante o discurso de sexta-feira, Abbas garantiu que o possível reconhecimento na ONU não era uma ameaça.

"A OLP continuará a existir da mesma maneira e continuará até a resolução de todos os assuntos pendentes que existem. Não só até existir uma solução, mas também até que a solução seja implementada", prometeu.

O taxista Morad A., de 37 anos, acredita que a proposta serve a quem trabalha no governo e não depende da economia israelense. "Muita gente aqui em Belém trabalha em Jerusalém, tem permissão do governo israelense para cruzar a fronteira. Onde é que toda essa gente trabalhará? Aqui na Palestina não tem trabalho para todo o mundo", disse.

Segundo o Escritório Central de Estatísticas Palestino, em 2009, dos cerca de 475 mil trabalhadores palestinos assalariados, 262 mil trabalhavam na Cisjordânia, 144 mil em Gaza, 58 mil em Israel e aproximadamente 10 mil em assentamentos judaicos.

George Rishmawi, diretor da ONG Siraj, em Beit Sahour, cidade próxima a Belém, explica que, do ponto de vista econômico, a Autoridade Palestina vive sob pressão para continuar as negociações com Israel. "Se cancelarem o investimento estrangeiro, as importações israelenses e a ajuda financeira dos EUA, eles vão à falência. Não haverá outra fonte de renda para o Estado além do que virá de impostos locais", disse. O governo do premiê Binyamin Netanyahu já ameaçou impor sanções financeiras como resposta ao pedido de reconhecimento palestino.

O advogado palestino Mustafa Abdelbaqi, de 47 anos, espera que da iniciativa pelo menos saia algum Estado - senão com 47% do território da Palestina, conforme a resolução da ONU de 1947, pelo menos com 22% acertados por Yasser Arafat, em 1993, nos Acordos de Oslo.

"Quando você faz uma inscrição pela internet, vê uma lista de países e não encontra a Palestina, há uma pressão para clicar em Israel como se fosse sua terra natal. Psicologicamente, isso nos afeta", afirma. "O mais importante é conseguirmos um caminho para a liberdade, encontrarmos nosso lugar no mundo", afirmou Abdelbaqi.

Suspense

SAAD AMER

BIBLIOTECÁRIO DE RAMALLAH

"As pessoas estão frustradas. Nós ainda não sabemos qual é o plano, o que ganharemos e o que nós perderemos. Ninguém nos disse nada"

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