IARA MORSELLI/ESTADÃO
IARA MORSELLI/ESTADÃO

Palestinos não queriam que Bolsonaro tocasse no tema de Jerusalém, diz embaixador

Ibrahim Alzeben diz que falta de coordenação para a visita do presidente aos territórios palestinos e o anúncio do escritório de negócios em Jerusalém incomodaram a Autoridade Palestina

Redação, O Estado de S.Paulo

01 de abril de 2019 | 12h15

BRASÍLIA - A abertura de um escritório de negócios brasileiro em Jerusalém e a falta de coordenação com os palestinos para a visita do presidente Jair Bolsonaro à cidade disputada incomodaram a Autoridade Palestina, disse o embaixador palestino em Brasília, Ibrahim Alzeben, à agência Reuters nesta segunda-feira, 1º.

A decisão de Bolsonaro de passar quatro dias apenas em Israel, sem considerar uma visita aos territórios palestinos, não foi bem vista, e recebeu uma dura reação dos palestinos, que avaliam chamar para consultas o embaixador no Brasil.

“Gostaríamos que a visita tivesse sido coordenada com a parte correspondente da Palestina e com a Comissão Suprema das Igrejas, um órgão palestino”, disse o embaixador.

De acordo com o embaixador, “está em consideração” sua convocação para voltar aos territórios palestinos em reação à visita de Bolsonaro. “Segundo fui comunicado, vai depender da evolução da visita (a Israel)”, disse. “Gostaríamos que não se houvesse tocado no tema de Jerusalém.”

No domingo, em reação ao anúncio da abertura do escritório de negócios brasileiro em Jerusalém, o Ministério das Relações Exteriores palestino condenou o que chamou de “flagrante violação da legitimidade internacional” e “agressão direta” contra o povo e os direitos dos palestinos, e disse que entraria em contato com o embaixador em Brasília com o objetivo de consultá-lo.

Nesta segunda, o presidente brasileiro disse que os palestinos "têm o direito de reclamar" e prometeu que "bem antes" do fim de sem mandanto, em 2022, tomará uma decisão sobre a embaixada em Israel.

O anúncio sobre o escritório irritou a comunidade árabe, apesar do recuo na decisão de transferência da embaixada de Tel-Aviv para a cidade, o que era esperado pelo primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu.

Prometida por Bolsonaro desde a campanha, seguindo movimento feito pelo governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a mudança foi sendo deixado de lado pelo governo pelo impacto que a poderia ter nas relações com os países árabes, grandes importadores de carnes de ave e de bovinos do Brasil.

A opção do governo brasileiro foi anunciar a abertura de um escritório de negócios, uma extensão da embaixada, com poucos efeitos práticos - mesmo porque, o centro financeiro e de negócios em Israel permanece em Tel-Aviv -, mas com impacto diplomático.

O Brasil tem mudado posicionamentos tradicionais em fóruns internacionais como a Organização das Nações Unidas em relação aos palestinos, e seguido os Estados Unidos, desde a posse de Bolsonaro. 

Recentemente, votou no Conselho de Direitos Humanos da ONU contra uma resolução que condenava a repressão israelense a civis na fronteira da Faixa de Gaza, e se absteve em outra resolução contra a expansão das colônias israelenses nos territórios ocupados.

Em sua conta no Twitter, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, defendeu a mudança, dizendo que o Brasil estava rompendo com uma tradição “espúria e injusta” de apoiar um tratamento “discriminatório” contra Israel. / REUTERS

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