Palestinos não reconhecerão Israel como Estado judaico, dizem representantes

Reconhecimento foi proposto por Binyamin Netanyahu em troca de congelamento em construções na Cisjordânia.

Guila Flint, BBC

12 de outubro de 2010 | 14h54

Líderes palestinos temem que refugiados percam direito de voltar a Israel

A proposta do primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, de que os palestinos reconheçam Israel como o Estado da nação judaica em troca do congelamento das construções em territórios ocupados nunca poderá ser aceita, disseram representantes palestinos.

O ex-primeiro-ministro palestino, Ahmed Qorei, declarou que os palestinos rejeitam veementemente a proposta de Netanyahu.

Qorei também disse que "a situação não tolera mais manipulações" e afirmou que Netanyahu está tentando "se esquivar de um processo de paz verdadeiro e sério que possa garantir a ambas as partes seus direitos de acordo com a lei internacional".

O principal negociador palestino, Saeb Erekat, acusou o premiê israelense de "fazer truques" e disse que o reconhecimento do caráter judaico de Israel não tem ligação com a obrigação de Israel de "cumprir seus compromissos de acordo com a lei internacional".

Esta não é a primeira vez que Netanyahu menciona a questão do reconhecimento.

O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, já disse algumas vezes que a liderança palestina já reconheceu a existência do Estado de Israel quando assinou o Acordo de Oslo, em 1993.

"Não é nosso papel definir o caráter de Israel ou sua identidade étnica ou religiosa", afirmou Abbas, "o importante é que reconhecemos sua existência".

"Por mim eles (os israelenses) podem se auto denominar o 'Império Judaico-Sionista'", afirmou o presidente palestino.

Refugiados

A resistência dos palestinos a reconhecer Israel como Estado judaico se deve ao temor em relação problema dos refugiados palestinos.

Segundo o Acordo de Oslo, a questão dos direitos dos refugiados, inclusive o direito ao retorno, deverá ser negociada entre as partes e o problema deverá ser resolvido no acordo final.

Os palestinos temem que reconhecer o caráter judaico de Israel antes da negociação possa comprometer os direitos dos 20% da população israelense que não são judeus e também anule a possibilidade de 500 mil refugiados palestinos e seus descendentes retornarem ao país.

Em discurso no Parlamento de Israel na segunda-feira, Netanyahu afirmou que pediria ao governo uma extensão do congelamento dos assentamentos se a liderança palestina "disser de maneira inequívoca para seu povo que reconheça Israel como a pátria do povo judeu".

Colonos

A declaração de Netanyahu também despertou indignação por parte dos líderes dos colonos israelenses na Cisjordânia, que exigem a retomada total e imediata da construção dos assentamentos.

"A colonização é a fonte da força de Israel e não pode ser transformada em refém de Abu Mazen (apelido de Mahmoud Abbas)", declarou o Conselho da Judeia e Samaria (nome bíblico para Cisjordânia).

Segundo o prefeito do assentamento de Beit El, Moshe Rozenboim, a extensão do congelamento significaria "não só a destruição da colonização em Judeia e Samaria, mas também a destruição do Estado de Israel".

O líder dos colonos no norte da Cisjordânia, Gershon Messica, disse que "Judeia e Samaria são parte central da terra de Israel e construir aqui é nosso direito e nossa obrigação sionista".

Para Messica, a extensão do congelamento dos assentamentos seria "impensável".

Já de acordo com analistas locais, o próprio fato de Netanyahu ter mencionado a possibilidade de prolongar o congelamento indica uma mudança da atitude do premiê israelense, que desde o final do prazo anterior, no dia 26 de setembro, vinha dizendo que não estaria disposto a estendê-lo.

De acordo com o analista político do site de noticias Ynet, Atila Shompabli, em seu discurso no Parlamento, Netanyahu sinalizou que estaria disposto a ceder às pressões do governo americano e prolongar o congelamento.

Segundo fontes oficiais citadas pelo analista, Netanyahu "está procurando novas fórmulas" para justificar a extensão do congelamento.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.