'Palestinos querem Estado sem negociar com Israel'

ENTREVISTAS

Lisandra Paraguassu, O Estado de S.Paulo

18 Setembro 2011 | 00h00

Rafael Eldad, embaixador de Israel no Brasil

Por que Israel é tão ostensivamente contrário à inclusão da Palestina nas Nações Unidas?

É simples. Os palestinos querem conseguir o resultado da negociação sem negociar. Querem formar um Estado, receber os votos de reconhecimento nas Nações Unidas sem passar por um diálogo com Israel. O que ocorrerá? Eles recebem 130, 140 votos e no dia seguinte o que muda? A situação dos palestinos será melhor, viverão melhor, se sentirão mais soberanos? Não creio. Eles têm um Estado de fato hoje. A Autoridade Palestina já é um governo pleno.

Se os palestinos têm um Estado de fato, reconhecido por mais de 100 países, que diferença faz para Israel esse Estado ser ou não membro pleno da ONU?

Essa votaçã0 pode prejudicar o processo de paz. Os palestinos acreditarão que podem conseguir tudo sem negociar com Israel porque tiveram o apoio de 130 países, e isso pode ser muito perigoso. Se eles buscam uma solução com a ONU, não no diálogo com Israel, as possibilidades de se alcançar a paz ficam mais remotas. Isso pode prejudicar toda a região. Nós temos ali muitos fundamentalistas islâmicos, grupos terroristas, como o Hamas, o Hezbollah, tudo pode acabar facilmente em violência.

Mas o que mudaria para esses grupos, que o sr. classifica de terroristas?

Eles podem pensar que Israel está isolado. Acreditar, de maneira equivocada, que Israel está fraco, que é a hora de atacar. Por isso, o perigo. Temos todos, palestinos, israelenses e outros, uma grande responsabilidade. Mesmo que se diga agora que não é algo que deva preocupar Israel, que nada mudará, que é apenas uma satisfação emocional para os palestinos. Se vier uma onda de violência, quem será o responsável? É uma pena que eles não desistam (de apresentar a proposta à ONU). Se chegarmos a um acordo, Israel não somente apoiará a criação de um Estado palestino como será o primeiro a defender a ideia. Mas como resultado de um acordo de paz, de convivência. Porque buscamos paz, não gestos vazios, satisfações passageiras e superficiais.

Israel aceitaria discutir o reconhecimento das fronteiras anteriores a 1967, já admitidas por vários países, incluindo o Brasil?

Dizer o que aceitamos ou não é dar o resultado de uma negociação que não ocorreu. Hoje, Israel tem suas opiniões sobre territórios, Jerusalém e assentamentos. Os palestinos têm a posição deles. Discutimos e chegamos a um acordo. Não conseguiremos tudo. Nem eles. Essa é a natureza da negociação. Você me pergunta se Israel fará isso ou aquilo. Não sei. Pessoalmente, sou muito otimista. Se tivermos boa-fé, com verdadeiro desejo de paz, alcançaremos um acordo.

Qual é a expectativa de Israel caso os palestinos levem seu pleito à Assembleia-Geral?

A expectativa de Israel em qualquer votação na ONU nunca é boa. Somos um país pequeno e existem 22 países árabes e mais de 40 muçulmanos que podem se unir e ter muito mais votos, muito mais poder de pressão na Assembleia-Geral. Israel sabe que tudo o que vai à Assembleia-Geral é uma luta perdida.

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