Palestinos têm novos entraves para formar governo de união

O controle dos ministérios e o futuro papel da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) são os maiores empecilhos para a formação do novo governo palestino, e ameaçam levar por água abaixo os esforços das últimas semanas. "Chegamos a um acordo sobre a proporção para a divisão das pastas, mas não sobre sua distribuição nem sobre o papel da OLP no futuro palestino", disse nesta segunda-feira à agência Efe Mustafa Barghouti, mediador entre o movimento nacionalista Fatah e o islâmico Hamas. Segundo Barghouti, as negociações continuam apesar do anúncio feito nesta segunda-feira em Ramala pelo assessor do presidente Mahmoud Abbas, Nabil Amre, que dissera que haviam sido suspensas as conversas para a formação do governo de união na Autoridade Nacional Palestina (ANP). "Foram desperdiçadas milhares de horas de negociações (...). O único ponto em que existe acordo é em que Mohammad Shubair será o próximo primeiro-ministro", afirmou Amre. O assessor disse ainda que Abbas viaja nesta segunda-feira à Jordânia e à Arábia Saudita e, quando retornar a Gaza, em alguns dias, "será para ouvir do governo do Hamas sua decisão final sobre a formação do governo". O grupo radical islâmico Hamas, que venceu as eleições legislativas do começo do ano, forma o atual governo da ANP. Como o Hamas não cumpre as condições impostas por Israel e pela comunidade internacional - renunciar à violência e reconhecer o Estado judeu e os acordos já assinados entre israelenses e palestinos -, a ANP deixou de receber grande parte de seus recursos do exterior e passou a enfrentar graves dificuldades financeiras. Nesse contexto, foram realizadas nas últimas semanas negociações entre o Hamas e o Fatah para a formação de um governo de união nacional, o que foi visto como uma derrota do grupo islâmico e uma vitória do nacionalista. O ultimato de Nabil Amre foi rejeitado por Barghouti, que garantiu que os contatos continuam "no máximo nível" e que o acordo segue na mesa de negociações. "Hoje de manhã realizamos uma reunião conjunta com representantes dos dois partidos, e esta noite voltaremos a fazê-lo de forma separada", ressaltou Barghouti. Se em princípio as negociações entre os dois principais movimentos palestinos concentravam-se na forma de conseguir que o próximo governo da ANP reconheça o Estado de Israel, agora os empecilhos passam por problemas técnicos. A proporção dos ministérios por partido já foi estipulada. O Hamas ficará com nove; o Fatah, com seis; outros blocos, com quatro; e independentes, com cinco, segundo Barghouti. As partes, entretanto, não chegam a um acordo sobre "quem leva que pasta". O porta-voz do Hamas no norte da Cisjordânia, Khaled el-Haj, disse que o partido exige ocupar os ministérios do Interior e das Finanças, e quer que o Fatah assuma as pastas de Exteriores e da Informação. Mas Interior e Finanças são duas das pastas mais sensíveis. A primeira porque controla os organismos de segurança e a segunda porque tem a função de administrar os fundos que a comunidade internacional deve entregar aos palestinos com o fim do boicote imposto em maio, após a chegada do Hamas ao poder. Além disso, se o Ministério das Finanças for ocupado por um ministro do movimento islâmico, Israel pode se negar a entregar à ANP as taxas de alfândegas e impostos que recolhe para ela em virtude dos Acordos de Paris, de 1995. O segundo empecilho é o papel da OLP, histórico representante do povo palestino. "Estamos tentando reativar a OLP e dar-lhe um caminho para que possa incluir também o Hamas e as outras facções", disse Barghouti. O político negou-se a fazer comentários sobre a reivindicação do Hamas de liderar a metade dos 102 escritórios diplomáticos da OLP no exterior, o que o Fatah rejeita. O Hamas exige que, antes do fim do diálogo para a formação do governo, haja garantias de que terminará o boicote internacional aos palestinos, e de que Israel libertará os deputados e ministros do grupo islâmico presos há cinco meses. O fim do boicote é uma condição tanto do Hamas quanto do Fatah, pois o presidente Abbas, do movimento nacionalista, considera que, sem isso, não faz sentido formar um novo governo.

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