Jamil Chade / Estadão
Diante do muro em Belém, palestinos perdem a esperança de uma solução com dois Estados na região Jamil Chade / Estadão

Palestinos têm vergonha de ter erguido cerca

Segundo a ONU, 12% trabalham em Israel ou em assentamentos judaicos em áreas ocupadas

Jamil Chade ENVIADO ESPECIAL / BELÉM, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2017 | 05h00

Um constrangimento profundo se abate em qualquer conversa com palestinos quando se pergunta quem é que construiu o muro que eles mesmos qualificam como o símbolo de um “apartheid” moderno. O constrangimento vem do fato de que a resposta é: os próprios palestinos. 

Com uma taxa de desemprego inédita, uma economia devastada pelo cerco e a invasão de produtos chineses que levou ao fechamento das poucas fábricas locais, a realidade é que, hoje, mais de 100 mil palestinos trabalham nos assentamentos que eles justamente acusam de estar destruindo seu espaço vital.

Envergonhados e temendo retaliações de sua comunidade, palestinos rejeitam falar abertamente sobre o que os levou a trabalhar no muro ou mesmo nas construções que ocupam suas terras. 

Em cidades como Belém, Burqin ou Nablus, a reportagem do Estado colheu pelo menos dez depoimentos de pessoas que, sob anonimato, admitiram que trabalharam para erguer o muro ou estão atuando na produção agrícola dos assentamentos. Para todos eles, a lógica era que, com ou sem seu trabalho, o muro seria erguido. “Se não fosse eu, seria um chinês”, brincou um dos entrevistados. 

Um dos operários, ao norte de Jenin, relatou como “todos os homens” de seu vilarejo em um certo momento trabalharam no muro. “Nunca nos disseram o que era aquela obra”, justifica o palestino, que rejeita ter seu nome publicado. “Tememos as milícias do Fatah”, contou. 

Outro palestino, hoje dono de um pequeno mercado, conta que ele e seus primos trabalharam nas obras: “Recebemos duas vezes o que era pago na época na construção civil”. 

Mas não é apenas o muro que envergonha os palestinos. Nassar conta que, quando ainda estava na universidade, trabalhou na colheita em assentamentos israelenses. Hoje, orgulha-se de dizer que tem uma quantidade de camelos suficientes com seu irmão para dar trabalho e renda aos sobrinhos. “Assim, não precisam trabalhar nos assentamentos.” 

Ao final de 2016, os dados oficiais da ONU apontam que mais de 12% de todos os palestinos com emprego trabalham em Israel ou nos assentamentos denunciados por seus líderes. De um total de 959 mil palestinos oficialmente empregados, 112 mil sobrevivem graças aos trabalhos para israelenses. Em 2005, essa taxa era de apenas 55 mil. 

A constatação dos levantamentos feitos por ONU, Banco Mundial e até pelas autoridades palestinas é que, sem os empregos em Israel ou na construção de novos assentamentos, a taxa de desemprego entre os palestinos seria ainda maior. Oficialmente, ela é de 26%. Em 1999, a taxa chegava a apenas 12%, antes da imposição de restrições cada vez maiores por parte de Israel. 

Enquanto as barreiras eram erguidas, os números também mostram que a população palestina quase dobrou, passando de 2,3 milhões em 1995 para 4,7 milhões em 2015. Mas as oportunidades de trabalho não acompanharam essa expansão demográfica.

 

Segundo a ONU, os números oficiais escondem uma situação mais complicada. Hoje, apenas 46% das pessoas com idade de trabalho buscam empregos. Portanto, se a massa de cidadãos que abandonou o mercado laboral fosse considerada no cálculo final do desemprego, a taxa seria muito maior. 

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