United Arab List Raam/ REUTERS
United Arab List Raam/ REUTERS

Palestinos veem surgir movimento impulsionado por novas gerações

Juventude muda demandas tradicionais, com uma agenda mais ampla em busca de igualdade, liberdade e justiça

Patrick Kingsley, Isabel Kershner e Adam Rasgon, The New York Times

03 de junho de 2021 | 13h37

JERUSALÉM — Quando os israelenses abriram seus jornais e sites de notícia na terça-feira, encontraram uma enxurrada de reportagens e comentários sobre a possível saída do primeiro-ministro israelense Binyamin Netanyahu, há 12 anos no poder.

Quando os palestinos na Cisjordânia abriram o jornal de maior circulação do território ocupado, o al-Quds, precisaram ir até a página sete para encontrar uma menção sobre o futuro de Netanyahu.  

Para os israelenses, a possível saída de Netanyahu constitui um momento histórico — a queda de um homem cuja marca na sociedade israelense é mais profunda que a de boa parte dos políticos da História do país. Para os palestinos, no entanto, sua possível saída não desperta muito mais que indiferença e memórias amargas.

Durante os 12 anos de Netanyahu no comando do país, o processo de paz entre Israel e os palestinos afundou. O próprio premier expressa cada vez mais ambivalência sobre a possibilidade de um Estado palestino soberano. 

Para muitos palestinos, contudo, o possível sucessor, Naftali Bennett, não seria muito melhor que o atual primeiro-ministro. Ex-chefe de Gabinete de Netanyahu e antigo líder de colonos israelenses na Cisjordânia ocupada, ele se opõe categoricamente à existência de um Estado palestino.

Simultaneamente, muitos palestinos se ocupam com seu próprio movimento político, que alguns ativistas afirmam ser o mais significativo em décadas.

Desde 2006, a política palestina é fragmentada entre o Hamas, grupo islâmico que comanda Gaza, e o seu rival, o Fatah, que comanda a Autoridade Nacional Palestina (ANP), com autonomia limitada em partes da Cisjordânia. Há ainda uma minoria palestina dentro de Israel, cujos votos são cada vez mais fiéis da balança para determinar quem comandará o país, e uma extensa diáspora.

Unidade palestina

Ainda assim, essas partes díspares se uniram em uma erupção aparentemente espontânea, guiada pela identidade comum e por um propósito compartilhado. Isto ocorreu no mês passado, coincidindo com a guerra entre Israel e o Hamas em Gaza e as piores cenas de violência intercomunitária em décadas em Israel.

Em uma rara demonstração de união, centenas de milhares de palestinos e árabes-israelenses realizaram uma greve geral no dia 18 de maio em Gaza, na Cisjordânia, nos campos de refugiados no Líbano e dentro de Israel.

“Eu acho que independentemente de quem esteja no comando de Israel, não vai haver muita diferença para os palestinos”, afirmou Ahmad Aweidah, antigo chefe da Bolsa de Valores palestina. “Pode haver pequenas diferenças ou nuances, mas todos os principais partidos israelenses, com poucas exceções na extrema esquerda, compartilham a mesma ideologia.” 

Para Aweidah, no entanto, a greve de maio mostrou algo diferente. “Ela mostrou que nós estamos juntos apesar do que os israelenses tentaram fazer nos últimos 73 anos, nos categorizando como árabes-israelenses, moradores da Cisjordânia, de Jerusalém, de Gaza, como refugiados ou partes da diáspora. Nada disso funcionou. Nós estamos de volta aonde tudo começou.” 

Na minoria árabe em Israel, onde muitos se definem como cidadãos palestinos de Israel, a perspectiva de um novo governo divide opiniões. Por mais que o Gabinete possa ser comandado por Bennett e cheio de parlamentares que são contra um Estado palestino, alguns esperam que a presença de três partidos ao centro e à esquerda na coalizão, em conjunto com o apoio da Lista Árabe Unida, possa moderar a abordagem de Bennett.

“É complicado”, disse Basha'er Fahoum-Jayoussi, co-presidente do conselho das Iniciativas Abraão, um grupo não governamental que promove a igualdade entre árabes e judeus. “Há prós e contras. O maior ponto positivo é se livrar de Netanyahu. Para conquistar isso, contudo, há grandes consequências negativas.”

Nova geração

A provável nomeação de um ministro de centro-esquerda para supervisionar a polícia pode também encorajar os agentes de segurança a serem mais cometidos na abordagem de palestinos em Jerusalém Oriental. Os confrontos entre policiais e manifestantes na região tiveram um papel-chave para o acirramento das tensões que culminaram no conflito mais recente em Gaza. Outros, contudo, duvidam que possa haver grandes avanços nesta frente:

“Geralmente não importa quem é o ministro da Polícia”, disse Sawsan Zaher, vice-diretora-geral do Adalah, um grupo que promove o direito das minorias em Israel. “O comportamento da polícia é guiado pelo que é intrínseco à instituição, e não por uma decisão do ministro X ou Y.”

Algo de consequência muito maior para vários palestinos dentro e fora de Israel é uma mudança geracional que representa um novo desafio para a enfraquecida e dividida velha guarda da política palestina. A juventude vem alterando os paradigmas tradicionais do conflito israelense-palestino.

Entre os jovens palestinos, o discurso mudou de debates sobre possíveis fronteiras de um teórico mini-Estado palestino — algo cuja viabilidade é amplamente questionada hoje em dia — para uma agenda mais ampla e flexível. O objetivo é buscar direitos, liberdade e justiça tanto nos territórios ocupados como dentro de Israel.

Para Fadi Quran, diretor de campanhas na ONG Avaaz e organizador comunitário na Cisjordânia, o que mudou foi a ideia de que os próprios palestinos têm que atuar.

“No passado, quando os palestinos eram entrevistados na TV, a retórica era: “Quando a comunidade internacional virá nos salvar?”,  “quando Israel será responsabilizado?”, ou ainda “Quando os países árabes virão nos resgatar?”. Hoje, o discurso dos jovens é: “Temos isso sob controle, basicamente. Podemos fazer isso juntos’”

A mudança geracional é parcialmente consequência dos fracassos da velha guarda palestina, que não conseguiu cumprir as promessas dos anos 1990, quando os Acordos de Oslo criaram a esperança de que um Estado palestino estivesse perto. No entanto, nunca houve uma conclusão, e a ocupação israelense na Cisjordânia, um dia considerada temporária, hoje já tem mais de meio século.

Paralelamente, porém, as estruturas oficiais palestinas se esfacelam. O um dia monolítico Fatah, comandado pelos fundadores da causa palestina, se dividiu em três facções rivais antes da eleição que estava prevista para o dia 22 de maio.

Sinal da animação popular naquela que seria a primeira eleição nos territórios ocupados desde 2006, mais de 93% dos palestinos aptos a votar se cadastraram, e 36 partidos com cerca de 1,4 mil candidatos planejavam concorrer aos 132 assentos na Assembleia Palestina. Cerca de 40% dos pleiteantes tinham 40 anos ou menos, de acordo com a Comissão Eleitoral da Palestina.

Em abril, contudo, o presidente da ANP, Mahmoud Abbas, adiou as eleições indefinidamente, privando os palestinos de expressar sua escolha democrática.

Tudo isso ajudou a despertar uma onda de protestos e movimentos de base em Jerusalém que chamaram a atenção global, a greve geral dos palestinos pela região e uma explosão de apoio on-line de celebridades internacionais.

Alguns analistas duvidam que a demonstração recente de unidade palestina vá ter qualquer impacto imediato profundo na realidade do povo palestino. Outros, contudo, argumentam que após anos de estagnação, a causa palestina ganhou uma nova dose de energia, conectividade, solidariedade e ativismo.

Os eventos da última semana foram “como um terremoto”, disse Hanan Ashrawi, experiente líder palestina e ex-funcionária da alta cúpula da ANP. “Nós somos parte da conversa global sobre direitos, justiça, liberdade e Israel não pode censurar ou acabar com isso.”

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