Mark RALSTON / AFP
Mark RALSTON / AFP

Pandemia coloca em risco tradições do povo nativo indígena dos EUA

Comunidade Navajo é uma das mais afetadas pelo novo coronavírus no país; situação se agrava porque o conhecimento é passado justamente pelos idosos

Redação, O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2020 | 02h30

WASHINGTON - Emerson Gorman sabe como é enfrentar a destruição de sua cultura: quando tinha cinco anos, estava entre as milhares de crianças navajos separadas de suas famílias e enviadas para escolas cristãs que tentaram apagar suas crenças. 

Agora, com 66 anos, o curandeiro tradicional vive na maior reserva de nativos dos Estados Unidos e considera que é seu dever transmitir sua sabedoria, numa época em que os idosos da comunidade enfrentam a ameaça da pandemia de coronavírus.

"É muito importante falar sobre nossa história, nossos rituais e cerimônias", diz Gorman, um homem alto e forte, que vive em uma fazenda no centro da Nação Navajo, onde ele e sua família se dedicam à criação de gado e cultivo de milho, frutas e ervas.

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Ele considera fundamental a transmissão da medicina que pratica porque "sabemos que cuida de nós e estamos conectados à energia natural, aos espíritos e ao mundo natural", afirma.

Precariedade

A prevalência de condições relacionadas à pobreza, como diabetes, obesidade e doenças cardíacas, juntamente com o fato de que entre 30% e 40% da Nação Navajo - de aproximadamente 175 mil habitantes - não tem acesso à água corrente, fazem deste território uma das áreas mais afetadas pela pandemia de coronavírus nos Estados Unidos.

Com mais de 5.500 casos confirmados e 250 mortes, sua taxa de mortalidade per capita aparece atrás de Nova York e, assim como no resto do mundo, os idosos são os mais afetados.

No entanto, trata-se de uma situação singular porque, nesta comunidade, os idosos são os detentores do conhecimento, transmitidos oralmente às novas gerações.

"O fato de que essa doença esteja afetando os idosos de forma desproporcional é muito aterrorizante para os povos nativos. É uma enorme fonte de ansiedade", disse Allison Barlow, diretora do Centro Johns Hopkins para a Saúde dos Índios Americanos (CAIH).

Em Monument Valley, uma das regiões mais emblemáticas da Nação Navajo com gigantes formações rochosas, Lanell Mernard-Parrish, 40 anos, tesoureira do governo local Navajo, empilha caixas em carros para serem distribuídas entre os mais necessitados, especialmente para os idosos.

"Tive a sorte de crescer perto dos meus quatro avós", apesar de muitos de sua geração terem perdido seus idosos devido à extensa mineração de urânio realizada durante a 2.ª Guerra. Agora, o inimigo é a pandemia. 

Em 2004, a mulher de Gorman, Beverly, começou um acampamento para que os filhos da comunidade revivessem sua cultura e preservassem a tradição navajo. Como avó, em uma sociedade matriarcal, ela transmite os ensinamentos de seus antepassados. As lições incluem o idioma Navajo (Dine bizaad), a história, ervas, armadilhas para coelhos, fazer pontas de flechas e atirar fogo com o arco. / AFP

 

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