The Washington Post by Zack Wittman
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Pandemia dá origem a novos candidatos nos EUA: os trabalhadores desempregados

Um pequeno grupo de candidatos americanos entrou recentemente na disputa política, após perder o emprego ou em razão de outras consequências da pandemia

Eli Rosenberg / The Washington Post  , O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2020 | 07h00

A decisão de candidatar-se a um cargo político ocorreu repentinamente a Kelly Johnson, no mês de abril. Kelly, de 48 anos, de Dunedin, Flórida, havia sido colocada em licença do emprego de gerente de um restaurante, e depois de muitas semanas de frustração à espera do seguro-desemprego, decidiu concorrer a um cargo na Câmara dos Deputados da Flórida, sem nenhuma experiência política, determinada a consertar o sistema falido do seguro-desemprego, que acabava de experimentar em primeira mão.

Tony Tsonis, de 41, resolveu concorrer a uma cadeira na Câmara dos Deputados da Flórida mais ou menos na mesma época. Seu pai acabava de morrer por causa da covid-19, a doença causada pelo coronavírus, e Tsonis se viu de repente sem emprego, depois de ter sido posto em licença de sua posição de funcionário sênior em marketing da companhia Hilton Hotels em Orlando.

Milhares de pessoas estão concorrendo a um cargo público este ano, e enquanto a maioria tomou a decisão muito antes da pandemia, um pequeno grupo de candidatos entrou  recentemente na disputa política, após perder o emprego ou em razão de outras consequências da pandemia.

Estes candidatos não têm nenhuma experiência política, mas sobreviveram à devastadora crise econômica que fez com que mais de 20 milhões de trabalhadores perdessem seu emprego. Não há estatísticas a respeito destes candidatos nem garantias de que tenham chance de ganhar, mas eles mostram que, cada vez mais, o desemprego provocado pela pandemia está se tornando uma influência significativa na política.

Eles usam sua inexperiência como uma vantagem e se concentram em questões anteriormente misteriosas que surgiram na pandemia, como o sistema do seguro-desemprego, e a dura situação dos “trabalhadores essenciais”, os trabalhadores do varejo que foram saudados como heróis em março, mas desde então perderam pagamento extra, a flexibilidade da licença por doença e a gratidão dos seus empregadores e do público.

“São tantas as pessoas que sofreram as consequências ou conhecem alguém que as sofre”, observou Tsonis referindo-se ao novo grupo de candidatos como ele próprio. “As pessoas estão cansadas e procuram uma oportunidade para subverter o status quo e mudar a situação”.

Kelly Johnson sempre olhou a política com desprezo – um jogo nojento de pessoas que não tinham noção das necessidades de pessoas como ela, falou.

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Pastora por formação, Kelly disse que sempre votou nos republicanos e era uma firme defensora do presidente Donald Trump até pouco tempo atrás, mesmo brigando com seus pais por causa do presidente, em dezembro.

Mas seu envolvimento político acabou ali com a pandemia. Organizadora por natureza e sempre disposta a atuar, mãe de oito filhos, de repente ela se viu com mais tempo – e frustrações – depois de ser obrigada a sair em março da O'Keefe’s Tavern, em Clearwater, onde trabalhava.

Começou a observar Trump todos os dias, e se surpreendeu com a indiferença dele pela pandemia, logo no início. Após semanas de adiamentos do seguro desemprego, ela começou um grupo no Facebook com outras pessoas na mesma situação. O Action Group For Covid-19 ajudou a fundar outro chamado Fix It Florida. A Flórida foi inundada por um acúmulo enorme de pedidos que sobrecarregaram o sistema de desemprego cronicamente sem dinheiro do Estado.

Com o grupo do Facebook, Kelly ajudou a organizar protestos contra os atrasos do seguro em todo o Estado. Conversando com outros trabalhadores desempregados, ela criou um sentimento de empatia que antes desconhecia. Os desempregados não são “a escória da terra”, ou muito preguiçosos para segurar um emprego, como são caracterizados pelos políticos, afirmou.


Ela também leu sobre os cortes profundos na legislatura republicana da Flórida e do ex-governador Rick Scott feitos no sistema do seguro desemprego, depois da última recessão. “Quando a pandemia explodiu, foi como se eu tivesse pisado no freio”, disse Kelly, e acrescentou que dificilmente apoiará algum candidato republicano no futuro. “Fiquei andando em círculos como uma galinha com a cabeça cortada. Tentando administrar uma casa e trabalhar como mãe sozinha. E depois parei. Tenho a impressão de ter envelhecido 20 anos nos últimos seis meses."

Decidiu concorrer enquanto estava sendo entrevistada por um repórter local em um dos protestos. “Nós tínhamos a sensação de que ninguém lá no topo na Flórida nos ouvia”, disse. “Então decidimos agir por nossa conta."

Johnson espera derrubar o titular Chris Sprowls, um poderoso republicano que está cotado para se tornar o presidente da Câmara em 2021, se ganhar e se os republicanos mantiverem a maioria.

Algumas transformações foram menos dramáticas. Tsonis sempre foi democrata, mas a sua decisão de concorrer a um cargo foi o produto de frustrações semelhantes, depois de muitos atrasos para receber o benefício na Flórida, depois de perder seu cargo no marketing da Hilton Hotels em Orlando.

Circunstâncias semelhantes

Como Kelly, Tsonis organizava os trabalhadores desempregados em circunstâncias semelhantes – ex-colegas, que também estavam sofrendo com os atrasos.

Ele disse que concorrer a um cargo foi uma missão que lhe deu um objetivo em um momento de imensa crise. “Eu podia ficar deprimido ou abatido, sentir pena de mim mesmo – ou podia aproveitar da situação e transformá-la em algo positivo para mim”, acrescentou.

Tsonis perdeu a primária no dia 18 de agosto, mas concorreu em uma plataforma que trata das questões trabalhistas, com o intuito de expandir o Medicaid e opções habitacionais acessíveis aos trabalhadores, bem como uma mudança do sistema do seguro desemprego do Estado.

“As pessoas que ganham menos eram chamadas trabalhadores essenciais. Entretanto, muitos empregadores não dão aos seus trabalhadores equipamentos de proteção pessoal ou tomam todas as precauções possíveis para impedir o contágio", ele disse. “Há uma enorme desencontro entre os empregadores que oferecem o ambiente de trabalho seguro e a ameaça que continua ali”.

Evidentemente, não são apenas os candidatos. Outros ficaram sobrecarregados do ponto de vista político com questões de trabalho durante a pandemia.

Em abril, Daniel Stone, de 28 anos, perdeu o emprego de analista de mercado da Dollar General, em Nashville, depois de alertar para questões de segurança e para a falta de um salário de insalubridade para os trabalhadores da linha de frente da companhia.

Stone sempre se interessou por política e foi estagiário em duas campanhas políticas com questões de empregos corporativos com que trabalhava desde que se formou na faculdade, em 2014.

Mas a sua experiência na Dollar General, que é motivo de uma queixa por ele apresentada junto ao National Labor Relations Board, o levou a procurar uma ocupação em tempo integral na política.

Enquanto recolhia os pedidos de seguro-desemprego, ele passou a trabalhar como gerente de campanha sem remuneração para Marquita Bradshaw, que recentemente ganhou as primárias para a indicação democrata à cadeira no Senado dos EUA que está vaga em Tennessee.

“A pandemia retirou completamente aquela ficção de que as companhias cuidariam de nós porque trabalhamos para elas”, disse Stone. “Está na hora de fazer com que elas tomem realmente conta da gente e nos protejam, por meio da legislação e da ação”.

Charles Callanan também se sentiu estimulado a agir porque a pandemia acabou com o seu trabalho – e revelou, segundo afirmou, as deficiências da resposta do governador de Rhode Island, onde reside.

Como CEO de um consórcio de clínicas veterinárias no Estado, Callanan, que concorre como republicano a uma cadeira no Senado, constatou que a pandemia criou uma confusão de normas e restrições para negócios como o seu.

O seu empreendimento, na realidade prosperou por causa da pandemia, porque o número de pessoas que aumentou compravam bichos de estimação. Mas ele disse que tem dificuldade para trabalhar com programas, como o de trabalho compartilhado do Departamento do Trabalho do Estado, que subsidia os pagamentos dos trabalhadores em horários limitados – como aqueles que precisam de repente ficar em casa para cuidar dos filhos.

“O nosso negócio cresceu incrivelmente, mas a nossa equipe ficou em queda livre”, disse Callanan. “Eu tive de fazer malabarismos, e a situação não mudou”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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