Luciana Alvarez/Estadão
Luciana Alvarez/Estadão

Pandemia de coronavírus deixa 1,6 mil brasileiros presos em Portugal

Turistas são surpreendidos com cancelamento de voos e enfrentam dificuldades para remarcar passagens, muitos não têm onde se hospedar e não sabem como voltar para casa

Luciana Alvarez, especial para O Estado

24 de março de 2020 | 06h00

Com voos cancelados em cima da hora e sem conseguir remarcá-los, muitos turistas brasileiros vivem um drama em Portugal. Eles chegaram à Europa antes de a pandemia estourar e foram surpreendidos pelas restrições de viagens internacionais. A maior parte deles já voltou para o Brasil – ao menos 8,2 mil embarcaram de volta na semana passada –, mas ainda há 1,6 mil que permanecem em trânsito em Portugal. 

“Só quando cheguei ao aeroporto, às 6 horas da manhã, fiquei sabendo que meu voo para São Paulo estava cancelado. Os funcionários da segurança me deixaram entrar para tentar comprar outra passagem, mas só encontrei para o dia 27 por R$ 11 mil. Não tenho esse dinheiro”, conta Priscila de Lima, de 32 anos, que chegou a Portugal no dia 13 pela Azul. 

Para evitar aglomerações, o esquema de segurança do aeroporto de Lisboa foi reforçado e apenas passageiros com voos marcados para as próximas horas são autorizados a entrar. “Quando embarquei do Brasil para cá, não havia nenhum aviso de perigo. Falavam que a epidemia era só na Itália”, diz Priscila, que ficou no aeroporto para tentar um encaixe em um voo noturno da TAP. “Tem de dar tudo certo, porque não tenho mais hotel para passar a noite.” 

Tadeu Augusto Borges, de 33 anos, recebeu pela manhã uma mensagem de que seu voo da Latam, previsto para esta terça-feira, 24, estava cancelado. Sem conseguir remarcar, resolveu ir pessoalmente ao aeroporto, mas foi impedido de entrar. “Ficamos mais de uma hora na espera por telefone, sem sucesso. O aplicativo trava. Tentei acionar o seguro viagem, mas eles alegam que para o caso de pandemia não há cobertura. Só temos reserva no hotel até amanhã. Depois, não sabemos o que fazer”, afirma. 

“Entramos na Europa pela Inglaterra, no dia 4, e parecia que estava tudo normal. Agora, estamos em outro continente, sem conhecer ninguém e sem justificativa para o cancelamento”, conta Naiara Dias, de 32 anos, que viaja com Borges. 

Ao receber pela manhã a notificação de que seu voo do dia 25 foi cancelado, Ana Lígia Gonçalves, de 28 anos, começou uma peregrinação para tentar garantir a volta para casa. “Fui à embaixada, ao consulado, depois ao aeroporto. Não consegui falar com ninguém. Tudo fechado. Por telefone, só ouço mensagens de voz”, reclama. Em razão da pandemia, o Consulado do Brasil em Lisboa cancelou os atendimentos presenciais desde o dia 16. 

O roteiro inicial de Ana Lígia previa que ela voltasse de Madri para São Paulo. “No dia em que entrei em Portugal, fecharam as fronteiras com a Espanha. Paguei uma taxa de R$ 4 mil para mudar a passagem e sair de Lisboa, mas agora cancelaram meu novo voo”, disse. Na tentativa de conter a propagação do vírus, desde o dia 16, Portugal e Espanha fecharam suas fronteiras. 

Vindo de Recife para a Europa no cruzeiro Soberano, da Pullmantur, as mudanças de itinerário foram tantas que Valdomiro José Júnior, de 36 anos, tem até dificuldade de enumerar. “Em vários portos, não pudemos descer. Conseguimos desembarcar na Espanha. A empresa fretou uns 60 ônibus para trazer os passageiros para Portugal. Viemos escoltados pela polícia”, relata. Na tentativa de voltar com a mulher, ele gastou R$ 12 mil em passagens, que acabaram canceladas. “A operadora do cruzeiro avisou que nos colocaria num voo da TAP para São Paulo. Tenho esperança que dê tudo certo”, disse. 

A Embaixada do Brasil em Lisboa não respondeu à reportagem do Estado, mas vem prestando informações aos brasileiros em Portugal via redes sociais. No perfil do Facebook, diz que está buscando um “diálogo” com as empresas aéreas para que mantenham voos até que todos tenham voltado. 

Portugal está em estado de emergência desde a semana passada. O país registrou na segunda-feira, 23, 2.060 casos de coronavírus e 23 mortes. Segundo o Itamaraty, ainda há pelo menos 6 mil viajantes brasileiros retidos por fechamentos de fronteiras ou cancelamentos de voos em razão da pandemia em todo o mundo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.