Gianni Cipriano for The New York Times
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Gilles Lapouge
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Pandemia do coronavírus faz ressurgir novos rancores

Isolamento obrigatório revela bondade e boas ações, mas também faz famílias viverem em ambiente de discordâncias e conflitos

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2020 | 05h00

O distanciamento “Amai-vos uns aos outros...se conseguirem”. Os jornais continuam publicando “notícias” do fronte, todos os dias, ad nauseam. Chega-se a crer que nada, absolutamente nada mais se produz na França e no mundo.

De vez em quando, um artigo notável. Hoje, Le Monde dedica uma página para nos extasiarmos com os efeitos positivos deste confinamento: o triunfo do voluntariado. Se por um lado, os pedidos de ajuda são cada vez mais numerosos, as ofertas de pessoas de bom coração que propõem sua ajuda, seus talentos, suas economias crescem paralelamente.

O jornal utiliza uma fórmula muito bonita, que serviu em 1954, quando uma onda de temperaturas polares se somou à escassez de habitações. “Assistimos a uma insurreição da bondade”. Sociólogos e filósofos explicam aos leitores que as grandes provações coletivas têm o efeito de unir os seres humanos entre si de maneira indissolúvel, de acabar com suas brigas degradantes. É verdade. As guerras, por exemplo: como nos amávamos em 1914 quando camponeses e artistas, pobres e ricos, partiam de uma mesma cidade com o mesmo passo alegre ao assalto das tropas alemãs, “uma flor no cano do fuzil”. Isto durou oito dias.

O coronavírus é diferente. Graças a Deus, esta praga jamais provocou alguma forma de exaltação em quem quer que seja. Mas, se “a insurreição da bondade” é totalmente real, por outro lado, o confinamento que encurrala todo mundo tem também outras consequências, deploráveis, diga-se de passagem. O vírus faz o desastre nas famílias condenadas de repente a mostrar o reverso de suas vidas, dos seus beijos. Um reverso tenebroso.

Clara disse: “Droga! Tenho a impressão de ter sido condenada a minha vida toda”. Uma estudante de 22 anos deixa escapar: “Como suportar uma aproximação forçada com pessoas das quais procuro fugir há anos”. E seis jovens, indubitavelmente seis irmãs, citam o pessimismo como circunstância agravante do “distanciamento”. “Estar encurralado com os pais! É possível imaginar?” Ou para outra, a vida familiar reencontrada é um suplício, mas ela procura uma explicação para a “tolice”, exibida nesses reencontros.

Nestes breves reencontros, subentendem-se coisas “não ditas”. Uma das jovens fica sabendo também que seus pais são violentamente racistas. “Vou lhe contar. São estrangeiros. Não falam uma palavra de francês. E reproduzem todas as bobagens que circulam  sobre os estrangeiros, os 'macaronis, os polacos, os rosbifes' ... As fake news...Dizem também: 'Este vírus não é nada. Basta tomar água fervente. Ou então, comer gengibre, alho e pimenta. Nos primeiros dias tentei explicar para eles que os estrangeiros não são uns delinquentes...Eu não suporto. Corto logo...”.  

Outra irmã faz o balanço desta clausura. Judith, que tem 27 anos e não mora com os pais, quando não há esse vírus circulando, descobre a face sombria deles. “Cada discussão com meu pai me dá vontade de pôr um ponto final com: Tudo bem. Mancada”.

Outra banalidade que anda por aí. O perigo comum, esta morte silenciosa, sem culpados, sem palavras, desumana a bem da verdade, bem que poderia acabar com os grandes antagonismos políticos, religiosos, culturais, geográficos, racistas.

Le Monde foi ver o que está acontecendo na Índia, país enorme onde os hindus são mais de um bilhão, e a minoria muçulmana talvez um milhão. O jornal traz uma reportagem sobre a capital Nova Délhi intitulada: “Na Índia, o vírus do ódio". As autoridades nacionalistas hindus asseguram que os muçulmanos tiveram um papel decisivo na propagação da epidemia. Em Nova Délhi, as acusações têm como alvo uma congregação em um enclave muçulmano, a Talblighi Jammat, que no dia 15 de março organizou um congresso muçulmano, com peregrinos de todas as partes, os quais, é evidente, transportaram o vírus. Falsos vídeos na internet mostram entregadores muçulmanos escarrando na comida para infectá-la. O esquema é clássico.

Por ocasião das inúmeras cóleras, pestes, febres hemorrágicas que massacram multidões desde a Idade Média, os estrangeiros são violentamente acusados, denunciados, ameaçados, mortos. Na Provença, em uma epidemia de cólera no século XIX, as multidões atacavam os imigrados italianos acusados de envenenar as nascentes. A insurreição da bondade, sim, esta é real, impressionante. Mas há outra insurreição, a dos velhos rancores, dos racismos, das frustrações. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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