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Pandemia e diplomacia 

O fim do elo entre os EUA e a Europa começou muito antes dos casos de coronavírus

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2020 | 03h00

O coronavírus é um demônio. Destrói tudo o que encontra pela frente. Mata, cobre de luto e torna o nosso universo negro. E provoca uma crise econômica sem precedentes. Nessa desordem, ele toca em pontos delicados. Por exemplo, foi preciso matar chineses e italianos para confirmar o truísmo: o sistema de saúde e hospitalar francês está em frangalhos.

Uma outra tática do vírus é fazer crer que um acontecimento internacional se deve a ele, quando na realidade ele acelerou um processo que já estava em curso. Donald Trump fechou as fronteiras com a Europa depois de declarar que os primeiros casos da doença nos EUA vinham da Europa.

O deputado europeu Arnaud Dejean disse que “a covid-19 marcou o fim do elo transatlântico como foi criado há 70 anos”. Sim, mas Dejean não disse que o trabalho de demolição começou bem antes das primeiras vítimas do vírus na China. Ela teve início com a eleição de Trump à presidência, em 2016.

Desde então, Trump não cessou de disparar contra o edifício erigido por europeus e americanos após a 2.ª Guerra. O espantoso é que Trump criou uma imagem de irresponsável, uma personalidade volúvel, incapaz de manter uma ideia mais do que algumas semanas.

O que é verdade, em alguns casos, sobretudo quando ele diz besteiras. Por exemplo, quando a catedral de Paris pegou fogo, ele propôs enviar aviões com tanques de água para apagar o incêndio. Recentemente, falando sobre o coronavírus, sugeriu asfixiá-lo com doses de álcool. O presidente americano já esqueceu hoje o que vai dizer amanhã.

Aliás, todas essas asneiras, esses gestos desmedidos, talvez sejam voluntárias, um dos elementos da tática de Trump. Mas não é este o caso em se tratando do ódio que ele tem da relação atlântica. Neste aspecto, ele multiplica não só as declarações iconoclastas, mas também os atos decisivos.

Acordos que só demandam dólares

Para ele, a Europa está acabada. Ela arruína os EUA há 70 anos, sendo subvencionada por Washington. E, na sua opinião, todos os acordos multilaterais que ligam os países uns aos outros, como Otan, OMS e ONU, são péssimos alunos que só demandam dólares. 

Além do que, para ele, a União Europeia e outras alianças não têm nenhuma razão de existir senão defender a ordem liberal ocidental e sustentar esse “multilateralismo”, que é uma calamidade. Se existe um risco de guerra, quem vai sustentar o choque? O Exército, a força e o dinheiro dos EUA. A UE não é capaz de criar uma força comum e fazer voar seus aviões de longa distância sem os americanos, afirma Trump.

Não são suas palavras exatas, mas é o sentido dos seus atos e discursos. Podemos lembrar alguns, no decorrer destes anos, e observar sua constância. A recusa em aplicar o acordo do clima assinado por Barack Obama. A retirada do acordo sobre energia nuclear, firmado com o Irã. E ele já retirou as tropas americanas da Síria sem avisar os europeus. Ele zomba da OMS, da ONU, não gosta da Otan, que diz custar muito caro para os EUA.

É o caso de perguntar se os EUA fariam alguma coisa se a Europa fosse atacada. Para um homem com reputação de versátil, reconheçamos que há alguns ventos dominantes que podem reorientar a ventoinha. Os ventos do oriente, talvez, se a China de Xi Jinping, um pouco sacudida nestes tempos, o desejar. 

Mas então, no pior dos casos, o que restará para a Europa? Vamos observar primeiramente como a frágil unidade da UE sobrevive à provação hedionda do coronavírus e aos fossos profundos que o vírus tem provocado. E, mais tarde, se Trump não estiver mais na presidência, reconstruir a relação atlântica sobre bases novas. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

 

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