Saul Loeb and Ronda Churchill/AFP
Saul Loeb and Ronda Churchill/AFP

Pandemia, Judiciário, racismo...  quais temas devem pautar o primeiro debate presidencial americano?

Donald Trump e Joe Biden se confrontam frente a frente pela primeira vez desde o início da campanha nesta terça-feira, 29

Renato Vasconcelos, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2020 | 16h00

O primeiro encontro presencial entre Donald Trump e Joe Biden durante a corrida presidencial acontece nesta terça-feira, 29. Os candidatos dos partidos Republicano e Democrata participam do primeiro debate presidencial em rede nacional, em um momento que as pesquisas de eleitorais apontam um acirramento na disputa em Estados-chave.

O público americano certamente usará este momento para avaliar o comportamento dos dois candidatos. Enquanto Trump se apresenta como um "showman" em aparições públicas e vê o debate como uma oportunidade de usar seu carisma para ultrapassar o concorrente, que lidera as principais pesquisas feitas até aqui, Biden usará o espaço para tentar mostrar que está apto a gerir o país, uma vez que se manteve longe dos holofotes durante a pandemia e é chamado de "senil" pelo adversário desde as prévias democratas. A checagem das informações ditas pelos candidatos durante o debate também terão parte das atenções no encontro.

No entanto, para além do embate entre personalidades distintas - que pode muito bem descambar para uma troca de acusações - alguns temas devem ser tratados pelos dois candidatos. Desde a pandemia do novo coronavírus e suas repercussões econômicas, que ocupam as manchetes dos principais jornais americanos há meses, até as últimas denúncias contra Trump, feitas pelo jornal The New York Times no domingo, 27, listamos os assuntos que Trump e Biden que podem ser enfrentados por Trump e Biden nesta terça: 

Pandemia

Se há uma aposta certeira entre os temas que serão abordados nesta terça-feira, a pandemia do novo coronavírus certamente é o principal deles. A preocupação com a doença no país, apesar dos anúncios de proximidade de uma vacina, ainda é prioritária no país, uma vez que os EUA lideram o ranking de número de casos e mortes por covid-19.

A postura de Trump durante a pandemia foi duramente criticada por opositores e sociedade civil. O presidente adotou um tom negacionista em relação à gravidade do coronavírus, o que é alvo de questionamentos. Já em setembro, um livro lançado pelo jornalista Bob Woodard revela que Trump minimizou o perigo da pandemia por escolha própria. "Eu queria sempre minimizar", disse o presidente ao jornalista. "Ainda gosto de minimizar porque não quero criar pânico".

Black Lives Matter, racismo e violência policial

Outro tema latente na sociedade americana e que deve ser encarado pelos candidatos é o racismo, a violência policial no país e as manifestações promovidas pelo movimento Black Lives Matter. A luta antirracista ganhou espaço nacional após a morte de George Floyd, homem negro morto por um policial branco durante uma abordagem. Depois de Floyd, outros casos mantiveram o debate ativo e os manifestantes nas ruas, como os de Jacob Blake e Breonna Taylor.

Trump e Biden tem se manifestado de formas quase antagônicas até aqui. O presidente republicano frequentemente tem atacado o Black Lives Matter, classificando-o como um movimento terrorista. Trump enviou tropas federais para conter protestos em determinadas cidades, manifestando-se discretamente sobre as vítimas em si. Biden, por outro lado, buscou apoiar a causa antirracista. O candidato democrata demonstrou apoio às vítimas, conversando inclusive com alguns familiares. No entanto, o candidato é questionado pelos opositores por não ter condenado de forma mais explícita a violência em protestos do movimento, o que ganha relevância após protestos com mortos em Kenosha, no Estado de Wisconsin.

Sucessão na Suprema Corte

A escolha do sucessor da juíza da Suprema Corte dos EUA Ruth Bader Ginsburg, falecida no dia 18 de setembro, abriu uma nova frente de disputa entre republicanos e democratas. Pouco depois da morte de Ginsburg, Trump anunciou que pretendia ele mesmo indicar o substituto da magistrada na Corte. A pretensão do presidente foi imediatamente contestada pelos democratas, que alegaram que a escolha deveria ficar para o próximo presidente, dada a proximidade das eleições.

O tema é central na política americana, por se tratar da instância máxima do Poder Judiciário do país. Caso Trump possa escolher o nome do sucessor - ele indicou a juíza Amy Coney Berrett - o resultado seria a composição mais conservadora da Corte em décadas. Por essa razão, os republicanos veem o tema como um possível impulsionador da campanha do presidente à reeleição. Por outro lado, os  democratas apelam ao senado - que tem a última palavra sobre a indicação de juízes da Suprema Corte - que vete uma eventual nomeação. O partido de Biden argumenta que em 2016, quando Barack Obama teve oportunidade de nomear o sucessor do juiz Antonio Scalia, que morreu 10 meses antes da eleição, foi impedido pelos senadores sob alegação de que "o substituto deveria ser decidido nas urnas".

Segurança x fraude eleitoral

Outro tema tratado de forma recorrente durante a disputa e que deve surgir no embate cara a cara é quanto a segurança das eleições americanas e a possibilidade de fraude. O presidente Trump vem alardeando a possibilidade de fraude eleitoral há meses, tendo inclusive justificado, após a morte de Ginsburg, seu interesse na nomeação do sucessor, pois as eleições acabariam sendo decididas no tribunal supremo.

A principal acusação de Trump é quanto ao voto por correspondência, que os democratas defendem ampliar como uma medida de prevenção ao novo coronavírus. Os dois candidatos já chegaram a trocar acusações em pronunciamentos sobre o tema, com Biden afirmando que Trump conta "mentiras deslavadas" sobre o voto postal. Hoje, ambos terão a oportunidade de debater frente a frente a segurança do pleito.

Impostos de Trump

O mais novo fator entre os listados pela reportagem deve ser abordado por Biden durante o debate. No domingo, 27, o jornal The New York Times publicou a primeira parte de uma reportagem sobre dados das declarações de imposto de renda de Donald Trump.

Entre as principais revelações feitas pelo jornal estão o fato de que Trump não pagou imposto de renda em 11 dos 18 anos examinados pelo jornal. Em 2017, após se tornar presidente, ele desembolsou apenas US$ 750 (R$ 4.171). Além disso, o presidente reduziu seu imposto de renda com medidas questionáveis, incluindo uma restituição de US$ 72,9 milhões (R$ 405 milhões) que é alvo de uma auditoria da Receita Federal americana.

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