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Manoj Aligadi / AP
Manoj Aligadi / AP

Pandemia leva as mentes mais brilhantes de universidades da Índia

Na AMU, umas das melhores instituições de ensino do país, por exemplo, pelo menos 50 pessoas, entre docentes e funcionários, foram vítimas da covid-19

Aijaz Hussain e Sheikh Saaliq, Associated Press

19 de junho de 2021 | 12h11

SRINAGAR, ÍNDIA - Sajad Hassan sentou-se ao lado da cama de seu professor no hospital por três noites seguidas, falando na maior parte do tempo enquanto seu amigo e mentor respirava com a ajuda de uma máscara de oxigênio. Ambos estavam confiantes de que o acadêmico de 48 anos voltaria para casa em breve, até que ele teve diagnóstico positivo de coronavírus e os médicos ordenaram que ele fosse para o isolamento em uma ala conhecida por muitos no hospital universitário como "quarto escuro", porque poucos que entraram saíram vivos. “Eu podia ver visivelmente o medo em seus olhos”, lembrou Hassan.

Dois dias depois, o Jibraeil estava morto, um dos quase 50 professores e funcionários da Aligarh Muslim University (AMU), uma das melhores universidades da Índia, vítima do coronavírusA tragédia da AMU se repetiu em toda a Índia, com escolas perdendo professores e, como consequência, conhecimento - e em muitos casos de amizade e orientação. A pandima foi e tem sido devastadora para a comunidade acadêmica do país.

“O vírus tirou nossas mentes mais brilhantes”, disse Shafey Kidwai, porta-voz da AMU.

Uma das universidades mais antigas da Índia, a AMU produziu gerações de políticos, juristas e acadêmicos. A universidade tem sido a sede da educação moderna para muitos muçulmanos no subcontinente indiano e um berço intelectual para a comunidade. Ela foi fundada principalmente para educar os muçulmanos da Índia, que agora representam cerca de 14% da população do país.

Nos últimos dois meses, os jornais locais e a página da universidade no Facebook foram tomados por obituários de seus professores - todos mortos pela covid-19. Textos como o zoólogo “tocou a vida de uma geração de seus alunos”, o médico foi “um clínico, professor e ser humano excepcional, que orientou muitas gerações”, o psicólogo era uma “presença vibrante” e era “conhecido por conduzir pesquisas de alta qualidade” estão cada vez mais comuns.

E Jibraeil, um professor assistente de história com apenas um nome, era "dedicado, que amava seu trabalho e se preocupava profundamente com os alunos”.

No auge da onda, Kidwai se lembra de ter visto colegas levados em ambulâncias para o hospital. Alguns voltavam para serem enterrados no cemitério do campus com mais de um século, que ficou sem espaço e novas sepulturas tiveram que ser cavadas sobre as antigas. "Foi profundamente angustiante”, disse.

Não há uma contagem oficial de quantos professores morreram durante a pandemia, mas muitas das principais universidades indianas relataram situações semelhantes à da AMU. A Universidade de Nova Délhi, na capital da Índia, e as faculdades afiliadas perderam 35 professores. Em Jamia Millia Islamia, outra universidade da capital, quatro professores e 15 funcionários foram infectados pelo vírus.

A pandemia foi igualmente devastadora para professores primários e secundários da rede pública. Mais de 1,6 mil morreram em Uttar Pradesh, um dos 28 Estados da Índia, onde muitos foram infectados depois de serem forçados a comparecer às seções eleitorais, apesar de suas objeções.

Mortes têm escalada em abril e maio

Os acadêmicos foram apenas uma pequena parte da tragédia indiana que ocorreu entre abril e maio, quando seu sistema de saúde entrou em colapso por causa a um aumento repentino e severo de casos que pegaram o governo despreparado.

Alguns morreram em ambulâncias. Aqueles que chegavam aos hospitais muitas vezes ficavam sematendimento por causa da escassez de oxigênio e respiradores. Os crematórios funcionavams dia e noite, às vezes em piras fora de suas instalações lotadas.

Mais de 180 mil pessoas morreram nesses dois meses, quase a metade dos 383.490 óbitos confirmados na Índia desde o início da pandemia.

Como uma pequena queda nos casos nas últimas semanas, os gestores e estudantes da AMU começaram a avaliar o registro de perdas.

Eles dizem que as mortes de educadores deixaram um vazio e sua dor foi exacerbada pelo isolamento induzido pela pandemia, com velórios adiados indefinidamente ou realizados virtualmente.

“Queremos comemorar a vida daqueles que perdemos, mas a universidade inteira está vazia”, disse Kidwai da AMU. “Sem isso, eu sinto, os alunos sentirão uma sensação persistente de perda.”

No mesmo dia em que Jibraeil morreu, a estudante de doutorado da AMU Shah Mehvish soube que seu orientador de tese, Sajid Ali Khan, de 63 anos, também morrera após ser infectado.

A jovem de 28 anos, um dos seis Ph.D. de Khan,  diz que “a perda dele deixou um vazio em meu coração que é difícil de preencher. Semanas depois, ela tenta concluir sua pesquisa sem a tutela de Khan, o que a deixou "ansiosa". “A relação de cooperação entre professor e pesquisador exige muito tempo e esforço”, disse. “Não sei quanto tempo levaria para me familiarizar com um novo guia.”

Em tempos normais, o enterro de um professor popular como Jibraeil teria trazido centenas para o cemitério apenas no campus da universidade.

Mas por causa do bloqueio pandêmico, as pessoas estão proibidas de fazerem reuniões, incluindo a mulher de Jibraeil, Falak Naaz, e seus dois filhos pequenos.

Após as orações funerárias obrigatórias muçulmanas com a presença de várias dezenas de amigos e colegas foram conduzidas fora do cemitério antes do enterro.

Desesperado para dar seus últimos cumprimentos, Hassan se ofereceu para ajudar no funeral, baixando o corpo de Jibraeil em seu túmulo. “Eu devia isso a ele”, disse Hassan.

Sozinho no cemitério em uma noite quente de verão, com apenas o clérigo muçulmano que deu a última cerimônia e os três médicos que acompanharam o corpo do necrotério do hospital, Hassan se despediu do mestre. “Nunca vi um enterro tão silencioso e solitário”, disse Hassan. 

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