Pânico impede menino de embarcar para o Brasil

O caso de um menino que não consegue retornar ao Brasil de avião por sofrer ataques de pânico ao embarcar vem mobilizando médicos, diplomatas e companhias aéreas na Grã-Bretanha e está gerando um grande transtorno para os seus pais, o irlandês Brandon McAuliffei e a brasileira Luiza da Silva, residentes em São Paulo. Desde o dia 3 de agosto, o garoto, de doze anos, já tentou embarcar oito vezes acompanhado de seu pai. Mas, em todas ocasiões, sofreu um ataque de pânico e teve que ser retirado das aeronaves. Para tentar contornar o problema, o menino recebeu fortes doses de calmantes, inclusive com a vinda de um médico do Brasil, e sessões de hipnose, mas mesmo assim se recusou a voar. A solução - ou única opção - encontrada foi a de transportá-lo ao Brasil por navio. No próximo dia 5 de setembro ele partirá de um porto de Gênova, na Itália, de volta para casa, uma jornada que deverá levar cerca de vinte dias. Em entrevista à Agência Estado, Brandon, que é engenheiro civil e proprietário de um pub irlandês na capital paulista, explicou que já havia viajado de avião várias vezes com o menino, inclusive viagens internacionais para os Estados Unidos e Europa. "Ele nunca teve nenhum problema para voar, é um garoto muito forte e inteligente", disse. Segundo ele, o drama começou no dia 3 de agosto, quando, após permanecerem quatro semanas de férias na República da Irlanda, os dois tentaram embarcar na cidade Cork num vôo da companhia Air Lingus para Londres, de onde seguiriam para o Brasil via Varig. Logo após entrar no avião, o menino se mostrou agitado e nervoso e disse que não queria viajar. Após alguns minutos de tentativas, inclusive com o apoio dos comissários de bordo, McAuliffei resolveu desistir. Dois dias depois, uma nova tentativa, mas o garoto não aceitou nem mesmo entrar no avião. Os funcionários da Air Lingus aconselharam Mc Auliffei a recorrer à ajuda de um médico, que prescreveu alguns calmantes para o garoto. Mas a terceira tentativa também fracassou, e McAuliffei resolveu levar o seu filho de navio para Londres. "Eu esperava que indo a Londres, onde o aeroporto é maior e não é preciso caminhar pela pista de aterrisagem, ele embarcaria com mais facilidade", disse o pai. No dia 10 de agosto, após permanecer cinco minutos sentado na sua poltrona de um avião da Varig no aeroporto de Heathrow, o menino voltou a afirmar que não queria viajar. Ao tentar ser convencido pelo pai e comissários de bordo a permanecer a bordo, o rapaz ficou muito nervoso, e teve que ser contido fisicamente. "Ele é alto e pesado, tem 67 quilos, foi uma situação muito complicada para todos", disse o pai. Dois dias depois, após receber uma dose mais forte de calmantes, o jovem se recusou novamente a embarcar. Uma nova tentativa, dois dias depois, também fracassou. McAuliffei levou então o seu filho a um especialista em hipnose, que deu ao garoto uma fita com efeito calmante. "Ele começou a escutar a fita na sala VIP, sentou no avião, mas cinco minutos depois disse que estava entediado com a música e pediu para sair", relata o pai. "Decidimos então, após conversar com os médicos, tentar fazer com que ele viajasse dormindo, através de medicamentos." Para isso, o médico Nélson Fernandes viajou do Brasil a Londres para ministrar os medicamentos no garoto. Mais uma tentativa em vão. Mesmo dopado, o menino recusou-se a embarcar no avião. "O médico resolveu então dar a ele o máximo de medicamento possível, inclusive com um efeito mais longo, para uma última tentativa, a oitava." Adormecido, o menino foi colocado dentro do avião. Mas quando a aeronave começou a taxiar na pista de Heathrow, o menino despertou. "Ele sentiu a movimentação, começou a gritar e o avião teve que voltar para o portão de embarque para podermos sair", disse Mc Auliffei. "Decidimos não insistir e viajar ao Brasil de navio." Segundo Mc Auliffei, as despesas com médicos e passagens aéreas já superam os US$ 10 mil. Toda a sua bagagem e do menino seguiram para o Brasil. "Além disso, não estou trabalhando, o meu filho está faltando na escola em São Paulo e todos os familiares estão preocupados", afirmou. Amanhã, a mãe, a advogada Luiza da Silva, que é separada de McAuliffei, chega Londres para ficar com o filho até o seu embarque no navio na Itália. "Ela não o vê há várias semanas e vai fazer companhia a ele até o embarque", disse McAuliffei. "Vivemos dias difíceis, mas agora pelo menos teremos condições de voltar para casa."

Agencia Estado,

23 Agosto 2002 | 14h20

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