Papa afasta dom Odilo da cúpula do Banco do Vaticano

Num ato que está marcando o início de uma verdadeira reforma no Banco do Vaticano, o papa Francisco removeu da cúpula da instituição financeira o cardeal de São Paulo, dom Odilo Scherer. Outros três cardeais também foram substituídos e o argentino já avisou: se não conseguir reformar o Banco, vai fechar a instituição que tem sido alvo de escândalos de lavagem de dinheiro e corrupção.

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE DE O ESTADO DE S. PAULO, Agência Estado

15 de janeiro de 2014 | 20h01

Na reforma mais ampla realizada pelo papa Francisco no Vaticano, um dos pontos centrais será a transformação do Instituto de Obras Religiosas - o nome oficial do Banco do Vaticano - em uma entidade que apenas financie de fato essas obras.

D. Odilo fazia parte do grupo de cardeais que atuava para monitorar as atividades do Banco do Vaticano. Considerado como um dos fortes candidatos no conclave de 2013, d. Odilo tinha o apoio dos setores mais conservadores do Vaticano e representava uma certa continuidade em relação ao pontificado de Bento XVI.

Durante o conclave, a disputa por votos justamente colocou o grupo de apoio ao brasileiro em oposição àqueles que defendiam um candidato que representasse uma reforma.

Dias antes de deixar o poder, o então papa alemão renovou o mandato do brasileiro e dos demais cardeais do órgão de supervisão por mais cinco anos. Entre as funções do grupo está justamente a nomeação do presidente do banco.

No entanto, próximo de cumprir um ano no Vaticano e adotando a austeridade como sua bandeira, Francisco optou por rever o grupo e colocou em seu lugar outros cardeais vistos como aliados em sua busca por reformar a Santa Sé.

Quatro dos cinco cardeais no organismo foram substituídos. Saíram os cardeais Tarcisio Bertone, Telesphore Toppo e Domenico Calcagno, além de Scherer. O único que sobreviveu foi o francês Jean Louis Tauran.

No lugar desse grupo, o papa nomeou o cardeal de Toronto, Thomas C. Collins; o secretário de Estado Pietro Parolin; Christoph Schonborn, de Viena e considerado como um reformador; e o cardeal Santos Abril y Castello, amigo do papa.

O cardeal Domenico Calcagno, que chefiava outra ala financeira do Vaticano, também foi removido, depois que juízes italianos passaram a suspeitar de irregularidades.

O grupo liderado por Bertone foi alvo de duras críticas nos últimos anos por conta de não conseguir conter uma série de escândalos financeiros no Banco do Vaticano, inclusive com suspeitas de lavagem de dinheiro do crime organizado.

Em julho, dois outros executivos do banco pediram demissão três dias depois da prisão do monsenhor Nunzio Scarano, contador e acusado nos tribunais em Roma de ter contrabandeado 20 milhões de euros em malas entre a Suíça e a Itália, justamente para contas no Banco do Vaticano.

Na avaliação do papa, o Vaticano deve voltar a se concentrar em sua missão religiosa e, para isso, uma limpeza em sua estrutura precisaria ocorrer. Uma dessas revisões seria repensar a função do Banco do Vaticano. Em junho, o papa criou uma comissão para estudar uma reforma na instituição. Pela primeira vez em mais de cem anos, a entidade publicou um balanço anual de suas contas.

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