Gregorio Borgia/AP
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Papa anuncia corte de salário de cardeais após piora nas contas no Vaticano com pandemia

Para evitar demissões, pontífice optou por intervir 'segundo critérios de proporcionalidade e progressividade', com ajustes que afetam especialmente níveis mais altos de remuneração

Redação, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2021 | 16h28

VATICANO - O papa Francisco decidiu cortar os salários de cardeais e clérigos devido ao agravamento da crise econômica no Vaticano como resultado da pandemia de coronavírus, informou a Santa Sé nesta quarta-feira, 24. Um alto prelado do Vaticano disse à agência Reuters que acredita-se que esta é a primeira vez na história que a medida é tomada.

Em uma carta apostólica, chamada 'Motu Proprio', publicada nesta quarta, o papa anuncia que a partir de 1º de abril o salário dos cardeais será reduzido em 10%, e o dos chefes e secretários de dicastérios (ministérios) em 8%. Clérigos e religiosos terão o pagamento reduzido em 3%. 

"Um futuro economicamente sustentável requer hoje, entre outras decisões, a adoção de medidas relativas aos salários dos funcionários", escreveu o papa argentino no documento que anuncia o corte proporcional e indefinido nos salários no Vaticano.

O pontífice considera que as despesas devem ser contidas e por isso decidiu intervir "segundo critérios de proporcionalidade e progressividade" com ajustes que afetam especialmente os clérigos, os religiosos e os níveis mais altos de remuneração, informou o Vaticano News, o site de informações do Vaticano.

Acredita-se que cardeais que trabalham no Vaticano e vivem lá ou em Roma recebem salários de cerca de 4 a 5 mil euros ( aproximadamente R$ 26.520 a R$ 33.150) por mês, e muitos moram em apartamentos grandes pagando aluguéis bem abaixo do mercado.

Um porta-voz afirmou à agência Reuters que a maioria dos funcionários leigos não seria afetada pelos cortes.

Francisco, de 84 anos, vem de família da classe trabalhadora e sempre insistiu que não quer despedir pessoas em tempos econômicos difíceis, mesmo quando o Vaticano continua a apresentar déficits.

A decisão foi tomada devido ao "déficit que há vários anos marca a gestão econômica da Santa Sé" e, sobretudo, pela situação gerada pela pandemia, "que afetou negativamente todas as fontes de receitas da Santa Sé e do Estado da Cidade do Vaticano", explicou o pontífice no documento.

Os aumentos salariais por tempo de serviço também estão suspensos por dois anos para todos os funcionários de nível 4 e superiores.

As contas do Vaticano estão no vermelho devido à queda nas doações (25%), à perda líquida de receita dos Museus do Vaticano (85%) e às reduções que teve de aplicar em 2020 aos aluguéis de suas instalações para empresas em crise após o ano sombrio causado pela pandemia.

A Cúria Romana, administração central da Igreja Católica que agrupa 60 entidades ao serviço do papa, registou um buraco "da ordem dos 90 milhões de euros" (R$ 716 milhões), nas suas contas de 2020, face a um déficit de 11 milhões de euros (R$ 72 milhões) em 2019. 

No total, o Vaticano emprega cerca de 5 mil pessoas, que recebem regularmente seus salários. No ano passado, devido à emergência sanitária, a Santa Sé teve de recorrer a suas reservas financeiras, bem abastecidas, para poder cobrir as necessidades, sem ter de abandonar os seus numerosos bens imóveis.

Desta forma, compensou uma queda da ordem de "20 a 25%" em sua receita em 2020, que provavelmente se repetirá em 2021, explicaram fontes vaticanas. /AFP e REUTERS

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