Papa canoniza duas freiras palestinas

Em cerimônia no Vaticano, Francisco estimula paz entre israelenses e palestinos e envia mensagem de esperança para o Oriente Médio

CIDADE DO VATICANO , O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2015 | 02h03

O papa Francisco canonizou ontem duas freiras palestinas, transformando-as nas primeiras santas palestinas da época moderna. O pontífice também aproveitou a cerimônia para discursar a favor da reconciliação dos povos e da convivência em fraternidade, enviando uma mensagem de esperança para o Oriente Médio. A canonização aconteceu quatro dias depois de o Vaticano formalizar o reconhecimento do Estado da Palestina.

"Inspirando-se no exemplo de misericórdia, da caridade e da reconciliação (do Senhor), que os cristãos olhem com esperança em direção ao futuro, seguindo o caminho da solidariedade e da convivência fraterna", afirmou o pontífice momentos antes da oração Regina Coeli, que substitui o Angelus durante o tempo pascal.

Foram canonizadas a irmã carmelita Santa Maria de Jesus Crucificado, cujo nome original era Mariam Bawardi (1846-1878), e Santa Maria Alfonsina (1843-1927), antes chamada Maria Alfonsina Ghattas, que ajudou a fundar a Congregação das Irmãs do Rosário de Jerusalém.

Essas duas palestinas fizeram parte do grupo de quatro beatas que desde ontem são santas. As outras duas são Jeanne Emilie de Villeneuve, da França, e Maria Cristina Brando da Imaculada Conceição, da Itália.

A cerimônia começou às 10h (5h em Brasília) na Praça de São Pedro, onde se reuniram mais de duas mil pessoas, muitas vindas de Palestina, Jordânia e Israel. O ato contou com a presença do presidente da Autoridade Palestina (AP), Mahmoud Abbas, do patriarca latino de Jerusalém, Fouad Twal, e de representantes do governo de Israel.

Na cerimônia, o pontífice ressaltou de Mariam Bawardi que "a docilidade ao Espírito Santo a fez instrumento de encontro e comunhão com o mundo muçulmano". Em relação a Maria Alfonsina, Francisco disse que ela foi "exemplo de quão importante é nos responsabilizarmos pelos outros e viver ao serviço uns dos outros".

Em um discurso antes do evento, Abbas afirmou que as "duas santas palestinas adicionam uma dimensão muito distinta a nossa luta nacional, ou seja, os princípios humanitários e espirituais que nossa terra nos inspira a ter". Depois da canonização, em nota, Abbas voltou a se manifestar e disse que o exemplo das novas santas "afirma a determinação para construir uma Palestina soberana, independente e livre, baseada nos princípios da cidadania igualitária".

A cerimônia de ontem foi também uma tentativa de ajudar a estimular a paz entre israelense e palestinos, com a Igreja Católica enviando um sinal de apoio também às comunidades cristãs no Oriente Médio que viram muitos parentes, amigos ou conhecidos emigrarem para outras regiões do mundo.

"Muitos emigraram, a presença cristã na Palestina na atualidade pode ser de 2%, mas também há cristãos árabes em Israel", afirmou recentemente o diretor do Centro Católico Estudos e Meios de Comunicação de Amã, Rifaat Bared.

Com a canonização das freiras, os palestinos se tornaram o primeiro povo de idioma árabe a ter uma santa católica na época moderna. "Muitos cristãos deixaram Jerusalém ou tem dúvidas sobre seu futuro aqui, mas isto (a canonização) nos dá esperança e mostra que as coisas são possíveis, apesar das dificuldades", afirmou Wadie Abunassar, conselheiro e ex-porta-voz da Igreja Católica na Terra Santa. Até hoje, parentes das religiosas vivem na região e alguns tomaram empréstimos para acompanhar a cerimônia no Vaticano, disse Abunassar.

Visitas. A canonização marcou o fim da viagem de três dias de Abbas à Itália, onde ele se reuniu com o primeiro-ministro Matteo Renzi, com o presidente Sergio Mattarella, e com o papa Francisco.

No encontro do líder palestino com Francisco, sábado, os dois compartilharam o interesse de chegar à paz com Israel e conversaram sobre o acordo anunciado pelo Vaticano que reconhece o Estado da Palestina. O papa também presenteou Abbas com uma medalha que simboliza o "anjo da paz".

Ao término da cerimônia de canonização, ontem, os líderes voltaram a se cumprimentar e conversaram por alguns instantes. / NYT, EFE e REUTERS

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