Papa chega à Polônia e pede orações pelo seu ministério

Surpreendentemente remoçado ? enquanto é possível afirmar isso a respeito de um homem tão doente aos 82 anos de idade ? o papa João Paulo II desembarcou às 18h45 de hoje (13h45 no horário de Brasília) com seu esperado recado a Polônia: o primeiro discurso que pronunciou na oitava visita que faz a sua pátria foi uma mensagem de esperança e de ânimo aos compatriotas que 13 anos atrás ele ajudou a se livrar do comunismo. "Sei quanto nossa pátria mudou desde o tempo de minha primeira visita em 1979. Nesta nova peregrinação, eu posso observar como os poloneses comemoram a reconquista da liberdade. Estou convencido de que nosso país caminhará corajosamente em direção a novos horizontes de desenvolvimento, na paz e na prosperidade", disse o papa, respondendo as saudações de boas vindas do presidente da República, Aleksander Kwuasniwski, e do arcebispo de Cracóvia, cardeal Franciszek Macharski. O avião de João Paulo II, um jato da Alitalia, desembarcou no aeroporto de Cracóvia ? Balice (aliás, Aeroporto João Paulo II) às 18h25, sob aplausos de uma multidão de fiéis credenciados para a cerimônia de recepção. Sorrindo e acenando para o povo, o papa desembarcou sem precisar de ajuda. Segurou no corrimão e foi descendo devagarinho os degraus da escada. Várias vezes parou alguns instantes para abençoar os fiéis. Corais de moças e rapazes vestidos de trajes típicos nacionais cantavam músicas religiosas. Naturalmente, a "Barca" ? a da preferência do papa ? não faltou no repertório. "Aquilo não se podia imaginar acaba de acontecer: o Santo Padre esta aqui entre nos", comemorou o cardeal Macharski em sua curta saudação. "Depois de anos, a Igreja na Polônia livre ? e também a Polônia ? encontra-se na órbita dos sucessos e das difíceis questões que vive não apenas a Europa mas toda a terra", disse ainda o arcebispo, acrescentando que a Igreja participa da alegria e da esperança, das tristezas e do sofrimento do mundo contemporâneo. João Paulo II completou essas palavras do cardeal com uma mensagem de encorajamento aos poloneses. "Estou certo de que, no espírito do ensinamento social da Igreja, muitos de meus compatriotas se empenham na construção da casa comum da pátria com base na justiça, no amor e na paz", disse o papa. A Igreja, advertiu ele, "sempre recordou que não se pode construir um futuro feliz para a sociedade em cima da pobreza, da injustiça e do sofrimento de um irmão". Eleito sucessor de São Pedro em outubro de 1978, portanto 11 anos antes da queda do regime socialista na Polônia, o papa lembrou as conquistas de seu país, mas também advertiu para as dificuldades que seus compatriotas enfrentam. "Sei que muitas famílias polonesas, sobretudo as mais numerosas, os desempregados e os idosos carregam o peso das mudanças sociais e econômicas", afirmou João Paulo II, solidarizando-se com a alegria e o sofrimento do povo de sua pátria. Resumindo os principais objetivos desta visita de três dias a Polônia, o papa anunciou que, embora sua programação se limite a Cracóvia, ele traz uma mensagem para todos os seus concidadãos. "Deus rico de misericórdia, esta é a motivação desta minha peregrinação", disse João Paulo II, referindo-se ao primeiro item de sua agenda. Neste sábado pela manhã, o papa vai consagrar o santuário da Divina Misericórdia, de uma obra da periferia da cidade que, durante a ocupação nazista e depois no regime comunista, sempre abrigou perseguidos políticos. Karol Wojtyla conhece esse santuário desde o início dos anos 40, quando trabalhava como operário numa pedreira que fornecia matéria prima para uma fábrica de produtos químicos controlada pelos alemães. Órfão, ele recorreu a esse emprego não apenas para sua própria manutenção mas sobretudo para escapar ao risco de, estando desempregado, ser enviado a campos de trabalho forcado, provavelmente em Auschwitz, que fica a 60 quilômetros de Cracóvia. João Paulo II deu um recado bastante claro para quem, a essa altura, ainda acredita na hipótese de que ele possa renunciar e se recolher a um mosteiro. "Peço a vocês que rezem para que meu ministério apostólico seja frutífero e supere todas as expectativas", disse o papa, depois de manifestar solidariedade "a todos aqueles que sofrem, especialmente os doentes, as pessoas que vivem sozinhas, os idosos e aqueles que enfrentam a pobreza e a indigência". Ao concluir a leitura de seus discurso, Karol Wojtyla improvisou comentários bem humorados com o povo, que riu e aplaudiu suas brincadeiras. A bordo do tradicional papa-móvel, João Paulo II entrou na cidade sob aplausos das milhares de pessoas que se postaram às margens das avenidas para saudá-lo. Por volta das 21h, ele chegou ao palácio episcopal da Rua dos Franciscanos, onde morou durante 14 anos, de 1964 a 1978, enquanto foi arcebispo metropolitano de Cracóvia. A residência nada mudou desde que o seu cardeal foi eleito papa, pois seu sucessor fez questão de manter todos os móveis em seus lugares, tal como ele os deixou. A única novidade foi a instalação de um elevador, do térreo para o andar superior, especialmente para esta visita. Todas as vezes que voltou a Cracóvia, nas seis viagens anteriores, João Paulo II sempre ocupou o mesmo quarto que ocupava como arcebispo. O palácio, uma construção do século 17 da área do centro velho da cidade, fica a dois quarteirões da Praça do Mercado, coração cultural, político e social de Cracóvia, a ex-capital da Polônia que na época da monarquia. Em outras visitas, João Paulo II fez questão de passear na praça, embora isso não estivesse no programa. "O papa adora improvisar, mas não acredito que vá repetir a dose, porque agora ele esta bastante doente", observou o professor Jerzy Brzozowski, da Universidade Jagueloniana, da qual Karol Wojtyla foi catedrático. Milhares de pessoas, na maioria jovens, aglomeravam-se nas proximidades da residência episcopal quando o papa chegou a Rua dos Franciscanos. Elas tinham a esperança de que, como ocorreu nas outras vezes, ele aparecesse na sacada para responder a sua saudação. Na primeira viagem, em 1979, o papa chegou a subir numa cadeira para que o povo pudesse vê-lo melhor. E não deixou de aparecer também em 1999, vinte anos depois, quando já estava bem doente. Hoje, ninguém queria arredar o pé das imediações do palácio, porque corriam rumores de que João Paulo II apareceria a qualquer momento na janela.

Agencia Estado,

16 Agosto 2002 | 17h07

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