Papa chega à República Centro Africana, dividida entre cristãos e muçulmanos

Havia receios de que o papa pudesse cancelar a visita ao país, após os últimos episódios de violência, que já deixaram mais de 100 mortos desde o fim de setembro

AE, Estadão Conteúdo

29 de novembro de 2015 | 08h29

O papa Francisco aterrissou na manhã deste domingo na capital da República Centro Africana, Bangui, para sua última parada na visita à África. Ele encontra um país dividido pelos conflitos entre cristãos e muçulmanos e deve visitar ainda hoje um campo de refugiados onde uma comunidade cristã procura se proteger da onda de violência. Na segunda-feira, o pontífice vai a uma mesquita que também se tornou abrigo para muçulmanos que foram expulsos de suas casas.

Havia receios de que o papa pudesse cancelar a visita à República Centro Africana, após os últimos episódios de violência na capital, que já deixaram mais de 100 mortos desde o fim de setembro. Somente cerca de 15 mil muçulmanos continuam morando em Bangui, em meio a ataques que forçaram mais de 100 mil a deixar a cidade. Nos últimos dois anos, o número de refugiados no país chega a quase 1 milhão.

Muitos esperam que a mensagem de paz e reconciliação trazida por Francisco possa ajudar a estabelecer uma trégua neste país de 4,8 milhões de habitantes. A presidente Catherine Samba-Panza disse neste sábado que o papa está sendo aguardado como um "mensageiro da paz". "Muitos centro-africanos esperam que as mensagens que ele trará inspirem uma mobilização nacional e ajudem nossos cidadãos a aceitarem uns aos outros, aprendendo a viver juntos e avançando na reconstrução do nosso país", afirmou.

No campo de refugiados cristãos ao lado do aeroporto de Bangui, onde milhares de pessoas vivem há quase dois anos, a situação é de desespero. Sandrine Sanze e sua família voltaram para o local após a nova onda de violência, depois de já terem passado nove meses ali da primeira vez. "Nós rezamos para que, com a visita do papa, a paz possa retornar e nós possamos voltar para casa e recomeçar nossas vidas", disse.

A capital vive há tempos sob um toque de recolher, que começa às 20 horas. No enclave muçulmano na cidade, conhecido como PK5, o arcebispo de Bangui só consegue entrar escoltado por soldados armados da Organização das Nações Unidas (ONU). A entidade procurou convencer o Vaticano de que a situação estava sob controle antes da visita do papa.

O chefe da operação da ONU, Parfait Onanga-Anyanga, disse que os "capacetes azuis", junto com soldados franceses, vão manter o pontífice seguro. "É óbvio que um sabotador pode tentar quebrar a calmaria, mas estamos prontos para responder da forma mais eficaz possível", afirmou.

O conflito na República Centro Africana ganhou força no início de 2013, quando uma coalizão de grupos rebeldes muçulmanos do norte do país derrubou o presidente cristão. Com a saída do líder rebelde do poder, no começo do ano passado, uma onda de violência retaliatória liderada pelo grupo cristão Anti-Balaka expulsou a maior parte dos muçulmanos da capital.

O país se preparava para realizar eleições no próximo mês quando a morte de um jovem taxista muçulmano no fim de setembro reacendeu as tensões. Nas últimas semanas a milícia muçulmana Seleka liderou diversos ataques no bairro PK5 e cercanias.

No sábado, o papa esteve em Uganda, onde homenageou um grupo de cristãos, conhecido como os Mártires de Uganda, que foi morto no fim do século XIX, após se recusar a renunciar a sua fé. Ele exaltou os fiéis a seguirem o exemplo dos 45 mártires anglicanos e católicos. Fonte: Associated Press.

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