Papa condena ataque à comunidade judaica argentina

BUENOS AIRES - O papa Francisco condenou ontem o atentado terrorista que arrasou no dia 18 de julho de 1994 a Associação Mutual Israelita Argentina (Amia), em Buenos Aires. "Foi uma tragédia, uma loucura", declarou o pontífice em um vídeo ao qual o Estado teve acesso em primeira mão. A gravação foi divulgada em razão dos 20 anos do ataque. "Que a justiça seja feita", disse.

Ariel Palacios, Correspondente - O Estado de S.Paulo

18 Julho 2014 | 02h01

A explosão, causada por um carro-bomba que destruiu o prédio da Amia no bairro de Balvanera, no centro portenho, matou 85 pessoas e feriu outras 300, transformando-se no maior ataque terrorista praticado na América Latina.

Vinte anos depois, nenhum suspeito foi julgado. A Justiça argentina acusa um grupo de autoridades iranianas que integrava, na época, o governo de Teerã, de ter cometido o atentado juntamente com o grupo xiita libanês Hezbollah. As pistas também indicavam uma conexão coma polícia argentina e ex-militares.

O vídeo com a mensagem do papa será apresentado hoje em uma cerimônia promovida pela comunidade judaica em memória das vítimas do atentado.

"O terrorismo é uma loucura, que só sabe matar, não sabe construir - só destrói", afirmou o papa, que desde os tempos de arcebispo de Buenos Aires mantém uma relação de proximidade com a comunidade judaica. "Algumas vezes, eu disse que Buenos Aires é uma cidade que precisa chorar, que ainda não chorou o suficiente pelas tragédias ocorridas", afirmou. O papa lamentou a lentidão das investigações. "Temos a tendência de arquivar as coisas." Com voz embargada, disse ter "um desejo de justiça".

Até a noite de ontem, não estava confirmada a participação da presidente Cristina Kirchner na homenagem às vítimas - ou se a líder enviaria um vídeo ao evento, embora ela estivesse em Buenos Aires.

A presidente está concentrada na chegada, hoje, do presidente da China, Xi Jinping, à Argentina, que desembarca com promessas de investimentos de US$ 6,8 bilhões e fundos para que Cristina conclua a hidrelétrica "Néstor Kirchner".

A presidente não participa da cerimônia desde 2011. Naquele ano, o diretor da Amia, Guillermo Borger, afirmou: "Agradecemos sua presença. Mas ela não é suficiente. Precisamos de justiça". Desde então, segundo analistas e membros da comunidade judaica, Cristina evita o evento para não ser alvo de vaias dos parentes das vítimas, que criticam o governo pela lentidão e pelo descaso na investigação.

Irã. As críticas ao governo argentino intensificaram-se em janeiro de 2013, quando a Casa Rosada fechou um acordo com o Irã para criar uma "comissão da verdade" conjunta para investigar o caso. O pacto - que a comunidade judaica diz ser um retrocesso - foi aprovado no Parlamento argentino ano passado, mas o Legislativo iraniano ainda não o votou.

A Justiça de Buenos Aires declarou o acordo a inconstitucional. Essa decisão, porém, ainda poderá ser revertida. Mas, para o secretário-geral da Delegação de Associações Israelitas Argentinas, Jorge Knovlobits, o pacto está "politicamente acabado" e "juridicamente na UTI".

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