Papa consagra Santuário da Divina Misericórdia

Foi uma manhã de fé e oração. Como havia prometido na véspera, ao desembarcar em Cracóvia em sua oitava viagem a Polônia, o papa João Paulo II invocou a misericórdia de Deus como última esperança contra a violência, a injustiça e o sofrimento humano, ?num mundo marcado pelo ódio e pela sede de vingança e no qual a guerra semeia a dor e a morte dos inocentes?. João Paulo II aproveitou a cerimônia de consagração do Santuário da Divina Misericórdia, na periferia de Cracóvia, para convidar todos os homens, e não apenas os católicos, a refletirem no mistério do amor misericordioso de Deus como única saída para a construção de uma paz duradoura. ?Quanta necessidade tem da misericórdia de Deus o mundo de hoje!?, afirmou o papa ao encerrar uma homilia de 25 minutos. Cerca de 10 mil pessoas assistiram à missa. Na cerimônia, ele insistiu que só a confiança no amor divino pode restabelecer o valor do ser humano numa sociedade que respeita cada vez menos a vida e a dignidade da pessoa. ?É preciso transmitir ao mundo esse fogo da misericórdia?, aconselhou João Paulo II aos devotos da divina misericórdia, um culto que ele incentivou como arcebispo de Cracóvia. A resposta veio na mesma hora, com vivas e aplausos de fiéis chegados de todos os cantos da Polônia e de outros países da Europa. Faixas e bandeiras atestavam que a mensagem de Santa Faustina ? a freira canonizada por João Paulo II que propagou essa devoção ? vai se espalhando pelo mundo. O Santuário da Divina Misericórdia ganhou projeção internacional durante a Segunda Guerra, quando as freiras responsáveis acolheram centenas de refugiados em seu convento. Nessa época, começo dos anos 40, Karol Wojtyla costumava entrar na igreja das irmãs da Divina Misericórdia, quando voltava do trabalho. O futuro papa, que ainda não pensava em ser padre, era operário da fabrica Solvay, uma indústria de produtos químicos sob controle dos nazistas que ocupavam a Polônia. Essa ligação explica o empenho pessoal de João Paulo II na construção do santuário. ?Acho importante o papa divulgar essa mensagem neste lugar e durante esta visita que, tudo indica, deve ser a ultima que faz a Polônia?, observou o padre Stefan Duda, chefe de uma delegação de 50 devotos vindos de Gdansk, cidade portuária do Baltico, onde nasceu o movimento sindical Solidariedade que derrubou o regime comunista. O líder do sindicato, Lech Walesa, que depois dessa luta foi eleito presidente da República, assistiu à celebração no santuário, entre os convidados especiais do papa. Várias delegações vieram do exterior. Um grupo de jovens do grupo Chapitre Saint Jacques de Compostelle veio a pé do sudoeste da Franca para ver o papa em Cracóvia. ?Caminhamos durante três semanas para chegar aqui?, informou Pascal-Michel Pipon, líder dos 20 participantes da peregrinação ? nove moças e nove rapazes, sob a orientação de dois frades dominicanos. O grupo viaja rezando, com missa pela manhã e meditações à tarde. O clima de oração dominou hoje o Santuário da Divina Misericórdia. Às 7 da manha, três horas antes da chegada do papa, centenas de pessoas rezavam e cantavam no parque do convento das freiras. Vários padres, invariavelmente de batina, estavam a disposição dos fiéis que faziam fila para se confessar ao ar livre, de pé ou ajoelhados no meio da multidão. Tudo muito bem organizado, ninguém entrava sem convite e todas as bolsas foram revistadas pela policia. O tráfego de trens foi suspenso num ramal ferroviário que passa ao lado do terreno e as principais ruas foram fechadas no trajeto da comitiva do papa.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.