Tiziana Fabi/AFP
Tiziana Fabi/AFP

Papa convoca prefeitos europeus para falar de migração

As prefeitas de Roma, Madri e Barcelona pediram 'soluções críveis' para enfrentar a crise migratória que transformou o Mediterrâneo em um 'cemitério'

O Estado de S. Paulo

09 Dezembro 2016 | 19h54

A pedido do papa Francisco, cerca 70 prefeitos de cidades europeias se reúnem nesta sexta e sábado, no Vaticano, para tratar de migração e de refugiados.

As prefeitas de Roma, Madri e Barcelona pediram "soluções críveis" para enfrentar a crise migratória que transformou o Mediterrâneo em um "cemitério", conforme denunciado no primeiro dia do evento.

"Temos o dever moral da solidariedade", afirmou a prefeita de Roma, Virginia Raggi, do partido populista Movimento Cinco Estrelas (M5S), ao inaugurar o encontro na Casina Pio IV, nos jardins do Vaticano. 

"Temos de encontrar soluções, por meio de uma mudança radical das decisões políticas e econômicas", pediu a prefeita romana, em convergência com a posição do sumo pontífice, um argentino filho de emigrantes italianos. "Nossas cidades parecem ser encraves fechados em seu egoísmo."

Já a prefeita de Madri, Manuela Carmena, representante da esquerda radical do movimento Podemos, considera fundamental que o migrante tenha um trabalho digno na terra que o recebe.

"Temos de conseguir, pelos sistemas jurídicos, que sejam os poderes locais que possam conceder autorizações de trabalho às pessoas migrantes, aos refugiados", sugeriu.

A dirigente espanhola considera uma contradição que "os serviços sociais possam dar auxílios, alojamento, formação", mas que "(os migrantes) não possam trabalhar". "Essa sociedade cheia de riqueza não permite a possibilidade de trabalhar", lamentou.

A combativa prefeita de Barcelona, Ada Colau, fundadora da plataforma Afetados pela Hipoteca, denunciou a política da União Europeia, indignada com a construção de muros e com o fechamento de fronteiras. "Não podemos nos acostumar com o horror, porque, caso contrário, estaremos perdidos", advertiu. "É intolerável que vejamos como se acumulam quase 5 mil mortos em um ano no cemitério do Mediterrâneo."

Reunidos sob o lema "Europa: os refugiados são nossos irmãos e irmãs", os prefeitos rejeitaram o que Ada Colau chamou de "bunkerização" da Europa.

A crescente mentalidade xenófoba no Velho Continente foi condenada pela prefeita de Colônia, Enriqueta Reker, cidade alemã que, na véspera do último ano-novo, registrou uma onda de abusos sexuais por parte de estrangeiros. Enriqueta sobreviveu a um ataque a facadas de motivação xenófoba em 2015.

A França estará representada pela prefeita socialista de Paris, Anne Hidalgo, que falará no sábado, quando o papa se dirigirá aos participantes.

Também estará presente o prefeito da ilha grega de Lesbos, Spyros Galinos, que recebeu o papa em abril, durante sua visita à cidade que se tornou símbolo da tragédia migratória na Europa.

Já o prefeito de Palermo, Leoluca Orlando, propôs abolir o visto de permanência na Europa para aqueles que fogem das guerras, na tentativa de romper a rede ilegal de traficantes de pessoas, nas quais muitos caem.

Para o prefeito de Lisboa, Fernando Medina, "a questão mais importante é querer resolver o problema".  "Temos recursos financeiros, temos recursos organizacionais, temos tudo para ajudar essa gente que está lutando por sua vida. Não estão lutando por uma vida melhor, mas pela vida, simplesmente", defendeu.

Desde 2015, mais de 1,3 milhão de refugiados ou migrantes chegaram ilegalmente à Europa pelo mar. A maioria fugia da guerra na Síria, no Iraque, ou no Afeganistão. Mais de 4,7 mil morreram afogados na travessia, segundo números da ONU. / AFP 

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