AFP PHOTO/EDUARDO MUNOZ ALVAREZ
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Papa defende a valorização do papel das mulheres para a Igreja Católica

Em missa na Filadélfia, declaração de Francisco reitera sua determinação de promover a reconciliação entre o Vaticano e as freiras americanas, investigadas por Bento XVI

Cláudia Trevisan, ENVIADA ESPECIAL/FILADÉLFIA, O Estado de S. Paulo

27 Setembro 2015 | 02h00

FILADÉLFIA - Em missa celebrada na manhã de ontem na Filadélfia, o papa Francisco defendeu a valorização da contribuição das mulheres à Igreja Católica e disse que um dos desafios da instituição é fomentar nos fiéis um sentimento de responsabilidade pessoal para que sejam “fermento do Evangelho” e participem na definição dos rumos da Igreja.

Depois de uma passagem por Nova York que sacudiu e comoveu a cidade, o papa encerra hoje sua visita de seis dias aos EUA com uma cerimônia que deve atrair 1 milhão de pessoas.

Francisco escolheu Santa Catalina Drexel (1858-1955), nascida na Filadélfia, para ressaltar o papel da mulher e o sentido de responsabilidade pessoal. Nascida em uma família rica, ela financiou várias missões que atuavam em comunidades indígenas pobres e decidiu se tornar freira depois de um encontro com o papa Leão XIII. 

Quando Catalina falava das necessidades das missões, o pontífice lhe perguntou “e você, o que fará?”, recordou Francisco. “Essas palavras mudaram a vida de Catalina, porque lhe recordaram que, no fim, cada cristão, homem ou mulher, em virtude do batismo, recebeu uma missão.” 

Em uma sociedade que muda rapidamente, disse o papa, os laicos devem participar de maneira mais ativa na definição dos rumos das paróquias e instituições da Igreja, em um espírito de “responsabilidade compartilhada” com as lideranças religiosas. 

Segundo o pontífice, o papel da mulher deve ser especialmente valorizado, com reconhecimento da contribuição de laicas e religiosas às comunidades onde atuam. A declaração reiterou a determinação de Francisco de promover a reconciliação entre o Vaticano e as freiras americanas, alvo de investigação iniciada por seu antecessor, Bento XVI, em 2010. 

O processo atingiu a principal instituição da face feminina da igreja nos EUA, a Conferência da Liderança de Mulheres Religiosas, acusada de estimular discussões divergentes da doutrina da Igreja em questões como controle de natalidade, sexualidade e ordenação de mulheres. Em abril, na preparação de sua viagem, Francisco determinou o encerramento da investigação, dois anos antes do planejado. A instituição foi absolvida.

Depois de rezar a missa, o papa visitou um seminário e foi ao Independence Mall, um dos lugares mais simbólicos da história dos EUA, onde foi declarada a independência e aprovada a Constituição. Em seu pronunciamento, defendeu a liberdade religiosa e voltou a falar em favor dos pobres e dos imigrantes. 

Francisco se referiu de maneira específica aos hispânicos, que representam 40% dos católicos americanos. O papa pediu que sejam cidadãos responsáveis e não esqueçam de sua cultura, que enriquece a própria cultura americana. “Não tenham nunca vergonha de suas tradições”, afirmou, sob aplausos dos muitos hispânicos que estavam na plateia. 

A diversidade religiosa e a necessidade de tolerância também foram ressaltadas por ele. “Em um mundo em que as diversas formas de tirania moderna tentam suprimir a liberdade religiosa, reduzi-la a uma subcultura sem direito a voz e voto ou utilizar a religião como pretexto para o ódio e a brutalidade, é necessário que os fiéis de diversas religiões unam suas vozes para clamar por paz, tolerância e respeito à dignidade e direitos dos demais”, afirmou.

No discurso, o papa se referiu ainda ao processo de expansão de direitos registrado pelos EUA ao longo de sua história, com a abolição da escravidão, o exercício do voto e o combate ao racismo e outras formas de preconceito “contra a chegada sucessiva de novos americanos”. Segundo Francisco, é necessário reafirmar esse movimento de maneira constante e recordar o passado. “Um povo que tem memória não repete os erros do passado”, afirmou. 

A Filadélfia é a última etapa da viagem de seis dias de Francisco aos EUA. Na sexta-feira, ele cumpriu uma agenda que mobilizou a maior cidade do país, Nova York. Depois de discursar na Organização das Nações Unidas (ONU), o papa participou de um culto ecumênico no museu erigido em memória das vítimas do atentado de 11 de Setembro, encontrou-se com imigrantes e refugiados, desfilou no papamóvel diante de 80 mil pessoas reunidas no Central Park e rezou missa para outras 20 mil no Madison Square Garden. 

No helicóptero que o levou de Manhattan ao aeroporto JFK, Francisco pediu que a aeronave sobrevoasse a Estátua da Liberdade e a ilha de Ellis Island, primeiro porto de parada nos EUA dos milhões de imigrantes que chegaram ao país no fim do século 19 e na primeira metade do século 20.

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