EFE/ Luca Zennaro
EFE/ Luca Zennaro

Papa defende bispo acusado de acobertar abusos

Francisco diz que não há provas contra Juan Barros, mas vítimas afirmam que sacerdote chileno estava presente durante assédio

O Estado de S.Paulo

18 Janeiro 2018 | 21h33

IQUIQUE, CHILE - O papa Francisco defendeu nesta quinta-feira, 18, o bispo chileno Juan Barros, acusado de acobertar abusos sexuais contra menores cometidos por um padre católico. O pontífice qualificou de “calúnias” as acusações. “No dia em que me trouxerem uma prova contra o bispo Barros, aí vou falar. Não há uma só prova. É tudo calúnia”, disse Francisco ao chegar a Iquique, norte do Chile.

Barros é bispo de Osorno, nomeado por Francisco em 2015. Ele é acusado de ignorar os abusos contra menores cometidos pelo padre Fernando Karadima, que foi condenado e afastado pelo Vaticano por pedofilia, em 2011. 

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A declaração do papa revoltou uma das vítimas, Juan Carlos Cruz. Ele garante que o bispo estava presente durante os abusos que sofreu. “É como se fosse possível alguém tirar uma selfie ou uma foto de Karadima abusando de mim e de outras pessoas com Juan Barros parado do lado, vendo tudo”, escreveu Cruz em sua conta no Twitter, após a fala do pontífice.

A presença de Barros nos eventos oficiais do papa foi bastante criticada. Na terça-feira, quando o bispo compareceu à missa que Francisco celebrou em Santiago, o papa havia expressado “dor e vergonha” pelos casos de abusos de menores cometidos por integrantes do clero no Chile - que envolveram cerca de 80 sacerdotes desde 2000.

Barros esteve também na missa de quarta-feira, em Temuco, e na realizada ontem em Iquique. Antes de o pontífice sair em sua defesa, o bispo declarou à imprensa que Francisco sempre foi carinhoso com ele. “O papa foi muito carinhoso ao final da missa (de Temuco), dando-me palavras de apoio”, disse Barros.

A organização Laicos de Osorno, que reúne fiéis católicos que exigem a destituição de Barros, lamentou o apoio de Francisco ao bispo. “Por um lado, o papa demonstra uma indolência e uma falta de tato. Mas isso não nos surpreende. Fica demonstrado que a presença de Barros nas missas não era teimosia (do bispo), mas uma mera vontade do papa”, afirmou Juan Carlos Claret, porta-voz do grupo, ao jornal chileno La Tercera

Críticas

O ex-sacerdote mexicano Alberto Athié, integrante da Rede pelos Direitos das Vítimas de Abuso Sexual, disse que há provas contra Barros, mas Francisco não as recebe. “Não é a primeira vez que o papa pede provas sobre as denúncias de acobertadores de sacerdotes denunciados por estupro de menores”, disse.

Segundo Athié, as vítimas de abuso sexual estão dispostas a depor e a confrontar o bispo Barros pessoalmente, mas nunca obtiveram autorização do Vaticano. “Não basta que o papa peça perdão se ele não está disposto a ouvir as vítimas.”

Anteriormente à declaração do papa, ativistas e vítimas de abusos sexuais pediram em Lima que Francisco remeta à Justiça comum os casos de abusos cometidos pelos sacerdotes católicos. “A Igreja não pode ser responsável por pessoas que, em qualquer tempo ou circunstância, são abusadoras”, afirmou Sara Oviedo, ex-vice-presidente do Comitê de Direitos Humanos das Nações Unidas.

Nesta quinta, o papa se reuniu com vítimas de abusos, encontro que não estava previsto em sua agenda. O tema - que tem afetado a imagem da Igreja - perseguiu Francisco durante toda sua passagem pelo Chile. 

Chegada

O papa chegou no início da noite desta quinta ao Peru, onde foi recebido pelo presidente Pedro Pablo Kuczynski. Após uma breve saudação protocolar, o pontífice se dirigiu à residência da Nunciatura Apostólica. Nesta sexta, na cidade de Puerto Maldonado, Francisco se reunirá com 3,5 mil representantes de comunidades indígenas peruanas, bolivianas e brasileiras. Horas antes da chegada de Francisco, pessoas não identificadas atacaram com artefatos incendiários a Igreja de Nossa Senhora do Carmo, em Arequipa, no sul do Peru. / AFP e EFE

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