Papa despede-se de Cuba após reunião com Fidel e sob críticas de dissidentes

Dúvida castrista. 'O que faz um papa?', perguntou o líder cubano a Bento XVI durante encontro na sede da Nunciatura Apostólica, em Havana; ativistas da oposição acusam o pontífice de ter agido como 'cúmplice do regime' ao não mencionar direitos humanos

GUILHERME RUSSO, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2012 | 03h02

Texto corrigido às 15h21

 

O último dia da visita do papa a Cuba foi marcado pelo encontro entre Bento XVI e o líder comunista Fidel Castro, pouco após uma missa que reuniu cerca de 500 mil pessoas, na Praça da Revolução, em Havana. "O que faz um papa? Qual é a sua missão?", perguntou o cubano ao religioso, que lhe respondeu afirmando que o sentido de suas viagens é o de confirmar os católicos na fé.

O entusiasmo e o comparecimento dos fiéis na principal liturgia de Bento XVI em Cuba (mais informações nesta página), porém, não foram tão intensos como há 14 anos, quando João Paulo II visitou o país, na primeira vez que um papa viajou à ilha.

"Soube pela boca do papa como foi (o encontro com Fidel). Tratou-se de uma conversa animada, um verdadeiro intercâmbio de argumentos", disse o porta-voz da Santa Sé, Federico Lombardi, sobre a reunião de 30 minutos ocorrida na Nunciatura Apostólica, a representação do Vaticano em Havana. "Fidel fez várias perguntas ao papa para conhecer seu pensamento sobre diversos temas. A primeira foi sobre as mudanças litúrgicas na missa. Ao final, a terceira pergunta (após a questão sobre a missão do pontífice) foi sobre as dificuldades dos tempos de hoje."

"O papa fez sua contribuição. Disse que a humanidade enfrentava dificuldades em razão da ausência de Deus. Expôs seus temas de reflexão: as relações entre a fé e a razão, entre a liberdade e a responsabilidade."

Enquanto isso, dissidentes da região de Santiago de Cuba protestavam contra o "desaparecimento" de um homem que, pouco antes da missa conduzida pelo pontífice na cidade, na segunda-feira, foi agredido após gritar contra o regime cubano diante do altar onde o papa rezaria pouco depois.

"O papa agiu como cúmplice da ditadura cubana ao não mencionar diretamente as afrontas aos direitos humanos e à liberdade de expressão. A alta hierarquia da Igreja Católica também decepcionou, por não ter criticado a agressão pública do cubano que gritou contra o comunismo e por não falar nada contra os cortes de comunicações e transportes ocorridos durante a visita", afirmou ao Estado o ativista Guillermo Fariñas.

O militante disse que ficou detido em sua casa, em Santa Clara, até o fim da manhã de ontem, "quando os veículos da polícia política" deixaram a frente de sua residência. "Fui cercado em minha casa. Não permitiram que eu saísse." A dissidência cubana denunciou que pelo menos 150 opositores foram detidos durante a visita do papa, dessa maneira ou em cadeias. "Fomos impedidos de ir às missas."

A blogueira Yoani Sánchez tuitava ontem que, após a missa em Havana, os opositores começavam a ser libertados.

Fariñas afirmou que a dissidência cubana não sabe o nome do homem "aparentemente detido". "Exigimos saber o que aconteceu com ele", disse. "Falei com muita gente e ninguém (entre os opositores) o conhece", afirmou, de Havana, o economista Oscar Espinosa Chepe. Os telefones da maioria dos dissidentes continuavam cortados ontem. "O papa veio a um país no qual as pessoas são constrangidas", disse Fariñas. / COM AFP

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