Jonathan Ernst/REUTERS
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Papa deve evitar condenar embargo contra Cuba durante visita aos EUA

Em entrevista no avião que o levou a Washington, Francisco disse que o bloqueio é parte das negociações que os dois países estão buscando

Cláudia Trevisan, CORRESPONDENTE, WASHINGTON, O Estado de S. Paulo

23 Setembro 2015 | 02h00

Apesar de a Igreja Católica condenar o embargo econômico dos EUA a Cuba, o papa Francisco não deve pedir de maneira explícita o levantamento das sanções à ilha nos pronunciamentos que fará em território americano, afirmou ontem o porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi.

“A posição da Igreja e do papa em relação ao embargo é crítica, porque ele é considerado uma fonte de sofrimento para o povo (cubano)”, declarou Lombardi em entrevista em Washington, onde o papa Francisco desembarcou ontem, vindo de Cuba.

Segundo ele, o pontífice falará do processo de reaproximação entre Washington e Havana, mas não deverá tratar de maneira específica do levantamento das sanções.

A bordo do avião que o levou a Washington, o papa confirmou que não abordará de maneira “concreta” a questão do embargo no discurso que fará no Congresso dos EUA amanhã – o primeiro da história.

“O bloqueio é parte das negociações. Ambos os presidentes se referiram a isso. É uma coisa pública que vai na direção de boas relações que estão buscando. Desejo que se chegue a um acordo satisfatório”, ressaltou o papa, em relação às negociações entre os presidentes Barack Obama e Raúl Castro.

Francisco afirmou desconhecer a informação de que dissidentes cubanos foram detidos quando tentaram se encontrar com ele em Cuba. Mas o pontífice ressaltou que os opositores do governo – e outros grupos – solicitaram audiência a ele e o pedido não foi atendido.

O porta-voz do Vaticano ressaltou que a decisão do pontífice de visitar os dois países na mesma viagem tem o objetivo de encorajar a normalização das relações bilaterais, depois de um rompimento de 53 anos. A visita a Cuba teve ainda a missão adicional de ajudar a Igreja Católica a “estar viva em uma situação difícil”, observou.

Lombardi ressaltou que a instituição pode estimular avanços na sociedade cubana na direção de “participação, liberdade, diálogo e reconciliação”.

Dando início à primeira visita aos EUA em seus 78 anos de vida, Francisco chegou ontem a Washington às 15h49 (16h49 de Brasília). O papa foi recebido na Base Aérea de Andrews por Obama, a primeira-dama Michelle Obama e as duas filhas do casal, Sasha e Malia.

Na base aérea, o pontífice embarcou em um Fiat 500 em direção à Nunciatura Apostólica, onde ficará hospedado. “A caravana tinha grandes carros e um pequeno carro. Era o carro do papa, o menor deles”, brincou Lombardi no início da entrevista.

O primeiro compromisso do papa nos EUA será um encontro com Obama na manhã de hoje, na Casa Branca. O porta-voz de Obama, Josh Earnest, afirmou ontem que o presidente não chegará à reunião com o pontífice munido de uma “agenda política”, mas ressaltou que os dois líderes têm posições semelhantes em relação a vários temas.

Ambos defendem um ambicioso compromisso mundial de combate à mudança climática, são favoráveis a medidas de inclusão de imigrantes e uniram esforços nas negociações que levaram EUA e Cuba a anunciarem em dezembro o restabelecimento de relações.

O papa visitará três cidades – Washington, Nova York e Filadélfia – e falará para públicos distintos. Hoje à tarde, Francisco celebra uma missa em espanhol para a canonização de Junípero Serra, que será o primeiro santo latino dos EUA.

Na sexta-feira, ele se dirigirá a líderes mundiais na ONU, quando deve pedir medidas de combate ao aquecimento global e de amparo a refugiados e imigrantes.

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