Mark Wilson/Getty Images/AFP
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No Congresso dos EUA, papa defende imigrantes e condena pena de morte e aborto

Na primeira vez que um pontífice discursou aos congressistas americanos, Francisco falou de temas que abordam tanto a agenda dos democratas quanto dos republicanos, maioria na casa

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington, O Estado de S. Paulo

24 Setembro 2015 | 12h33

WASHINGTON - No primeiro discurso de um papa ao Congresso americano, Francisco defendeu nesta quinta-feira, 24, o tratamento humano e fraternal a imigrantes e refugiados, condenou o aborto e a pena de morte, criticou o fundamentalismo religioso, pregou o fim da venda de armas e pediu dos parlamentares ações para o combate do aquecimento global. Sem mencionar Cuba de maneira expressa, também elogiou o diálogo entre países para superação de "diferenças históricas".

Com exceção da crítica ao aborto, do rechaço ao extremismo e da defesa da família, a maioria dos temas abordados pelo pontífice coincidem com a agenda do Partido Democrata do presidente Barack Obama, o que se refletiu na reação dos congressistas que lotaram o plenário da Câmara dos Deputados. Além dos parlamentares, estavam no plateia o vice-presidente da República, Joe Biden, quatro ministros da Suprema Corte e vários integrantes do gabinete de Obama, entre os quais o secretário de Estado, John Kerry.

Prioridade do presidente, a reforma do sistema de imigração foi barrada por oposição dos conservadores no Congresso. Na atual campanha eleitoral, a defesa de deportação dos 11 milhões de indocumentados que vivem no país ajudou a levar Donald Trump à liderança nas pesquisas entre os pré-candidatos republicanos.

Citando Martin Luther King e a luta pelos direitos civis nos anos 60, Francisco afirmou que os Estados Unidos continuam a ser para muitos a terra dos "sonhos". Lembrou ainda que o país foi construído com a ajuda de imigrantes e filhos de imigrantes, como ele próprio e vários dos congressistas. "Nós, que pertencemos a esse continente, não nos assustamos com os estrangeiros, porque muitos de nós fomos estrangeiros no passado." O papa fez referencia à crise de refugiados na Europa e ao movimento de pessoas que saem da América Latina em direção ao norte em busca de uma vida melhor para si e seus filhos.

"Não devemos nos intimidar pelos números, mas olhar para as pessoas, seus rostos, escutar suas histórias, enquanto lutamos para dar a melhor resposta à sua situação. Uma resposta que sempre será humana, justa e fraterna", disse. O papa reconheceu que os direitos dos que ocupavam as Américas antes da chegada dos imigrantes nem sempre foram respeitados e transmitiu sua "estima" aos povos e nações nativas. "Quando o estrangeiro nos interpela, não podemos cometer os pecados e os erros do passado."

Segundo Francisco, "aqueles primeiros contatos foram bastante turbulentos e sangrentos, mas é difícil julgar o passado com os critérios do presente." Na quarta-feira, o papa canonizou o primeiro santo latino dos Estados Unidos, Junípero Serra, um franciscano que fundou nove das 21 missões que deram origem ao Estado da Califórnia. Milhares de indígenas morreram nos agrupamentos criados em torno das missões, vítimas de doenças trazidas pelos europeus.

Falando a uma maioria republicana que se opõe a regulações ambientais estritas, o papa lembrou que fez um chamado a esforços "corajosos e responsáveis" de combate à mudança climática na encíclica Laudato Si. "Estou convencido de que podemos fazer a diferença e não tenho dúvidas de que os Estados Unidos - e este Congresso - têm um papel importante a desempenhar".

Republicanos rejeitam a noção de que o aquecimento global é resultado da atividade humana e veem com desconfiança medidas que limitam emissões de gases poluentes. O combate à mudança climática é uma das prioridades de Obama, que pretende deixar um legado nessa área quando concluir seu mandato, no início de 2017.

A reaproximação com Cuba é outro ponto da agenda do democrata criticado por muitos republicanos e defendido pelo papa. Como esperado, Francisco não pediu o fim do embargo econômico à ilha, que só pode ser levantado pelo Congresso, mas elogiou o restabelecimento de relações diplomáticas. "Quando países que estavam em conflito retomam o caminho do diálogo - que podia estar interrompido por motivos legítimos - se abrem novos horizontes para todos", declarou, sem mencionar de maneira expressa Cuba e os EUA.

Também sem citar Obama nominalmente, o papa elogiou de maneira contundente sua liderança na negociação com Havana, que requereu "coragem e ousadia", segundo sua avaliação. "Um bom político é aquele que, tendo em mente os interesses de todos, aproveita o momento com um espírito de abertura e pragmatismo."

Em outro ponto de divergência com os republicanos, o papa fez um apelo contundente pela abolição global da pena de morte. Os Estados Unidos são um dos únicos países desenvolvidos que mantêm a pena capital, aplicada principalmente em Estados governados por republicanos. "Cada vida é sagrada, cada pessoa humana é dotada com uma dignidade inalienável e a sociedade só pode se beneficiar da reabilitação daqueles condenados pela prática de crimes."

Sua crítica ao fundamentalismo religioso encontrou eco dos dois lados do espectro político americano. "Nós sabemos que nenhuma religião é imune a formas de desilusão individual ou extremismo ideológico. Isso significa que devemos estar especialmente atentos a todo tipo de fundamentalismo, religioso ou de outro tipo", afirmou Francisco. "Um equilíbrio delicado é requerido no combate à violência perpetrada em nome de uma religião, de uma ideologia ou de um sistema econômico, ao mesmo tempo em que preservamos a liberdade religiosa, a liberdade intelectual e as liberdades individuais."

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