Papa equilibra forças no Sacro Colégio

Esse papa João Paulo II vai nos surpreender até o fim: há oito dias, ele nomeou 37 cardeais, com uma esmagadora maioria de conservadores (inclusive até um homem da Opus Dei!). Sua intenção era clara: João Paulo II moldou o Sacro Colégio que será chamado, no dia em que ele morrer, para eleger um novo papa. Ele admitiu, então, colocar as chaves de São Pedro nas mãos de um homem "duro", de um homem pouco aberto à "modernidade". Ora, no domingo, para espanto de todos, o Vaticano publicou uma nova lista de promovidos. E essa fornada de sete novos cardeais, todos com menos de 80 anos e, portanto, todos "eleitores", ao contrário, é fortemente "progressista". Primeira surpresa: esse modo inédito de um papa "acertar a pontaria". Como se, ao voltar para seu quarto após o primeiro comunicado, o papa dissesse: "Meus Deus! Mas só há "reaças" lá dentro. O que fiz! Vou acrescentar a eles uma "pitada" de progressistas, e também um africano, além de um boliviano!"Outra hipótese: a primeira lista teria irritado uma parte dos católicos. Houve lamentações, inquietações, pressões. E João Paulo II teria dado ouvidos a essas reclamações. Essa teoria seria plausível se fosse um outro papa diferente de João Paulo II, se fosse um papa tímido, vacilante. Mas João Paulo II não nos habituou a essas hesitações. É um papa de granito. Político hábil, ele reflete, age e não escuta as críticas. Um exemplo disso são suas posições sobre o aborto, consideradas calamitosas por inúmeras igrejas, e sobre as quais jamais cedeu. Sem dúvida, ele é uma pessoa lúcida e demonstra isso com freqüência. Mas, às vezes, a velhice provoca alterações bruscas de humor, mesmo em um papa, caprichos e indecisões. No fundo, pouco importa o motivo dessas reviravoltas bruscas. O certo é que o Sacro Colégio vai ficar bem mais equibrado do que ficou após a fornada da semana passada. Isso nos anuncia dias palpitantes, durante o próximo conclave, enquanto esperarmos a elevação da fumaça branca. Nas trevas do conclave, debates brutais entre os progressistas e os conservadores serão polêmicos. E alguns especialistas "desrespeitosos" vão inclusive chegar a imaginar que João Paulo II (que outrora foi ator de teatro) quis preparar para sua sucessão, uma peça de teatro de alta qualidade dramática, com desafios, rixas, suspense, ataques etc. A reviravolta mais extraordinária de João Paulo II diz respeito à influente igreja alemã (diga-se de passagem, principal fonte dos fluxos financeiros do Vaticano). Na Alemanha, há uma figura dotada de uma grande carga simbólica no âmbito político. Essa figura é monsenhor Karl Lehmann, bispo de Mayence e presidente da Conferência Episcopal. Nasceu em 1936, é muito respeitado e favorável a uma atenuação da regra que proíbe os divorciados de se casarem novamente na igreja. Ele quer também que a igreja participe dos centros de consulta pré-aborto. É verdade que João Paulo II tentou manter o equilíbrio nomeando também um outro bispo alemão, muito pouco liberal, monsenhor Degenhart, bispo de Paderborn, que suspendeu as funções de padre do teólogo "infernal" Eugen Drewerman. Mas Degenhart não tem o mesmo peso de Lehmann. Portanto, mudança de orientação sensível do Vaticano. Na Alemanha, a nomeação de Lehmann tem causado boa impressão. Há quem pense que a ala liberal da Cúria romana conseguiu convencer João Paulo II de que, se ele não atenuasse a orientação conservadora da semana passada, correríamos o risco de assistir a um cisma na riquíssima igreja alemã. E, por experiência, sabe-se que, quando há um cisma na Alemanha, é coisa séria, importante. E que isso provoca ondas durante muito tempo, ondas muito altas: não foi no século 16 que Lutero se insurgiu contra a autoridade de Roma? E o protestantismo está longe de ser abafado quatro séculos depois.

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