Papa fará reforma histórica, diz relatório

Texto de cardeais nomeados por Francisco deve pedir mudanças cruciais no Vaticano

JOSÉ MARIA MAYRINK, O Estado de S.Paulo

29 Setembro 2013 | 02h03

O relatório dos oito cardeais nomeados há cinco meses pelo papa Francisco para ajudá-lo no governo da Igreja vai além da reforma da Cúria Romana, a administração do Vaticano. Ele deve abordar temas como o ecumenismo, o papel da mulher na Igreja e questões da vida cotidiana dos fiéis, em um cenário de mudança que se assemelha ao que antecedeu à reunião do Concílio Vaticano II.

O cardeal hondurenho Oscar Andrés Rodríguez Maradiaga, coordenador do G-8, como está sendo chamada a comissão, informou ao bispo de Jales (SP), d. Demétrio Valentini, que chegaram a suas mãos mais de 500 páginas com sugestões enviadas por bispos, teólogos e leigos de todos os continentes.

Francisco se reunirá com o G-8 de terça a quinta-feira, para analisar as propostas. A reunião tem caráter consultivo, pois todas as decisões serão tomadas pelo papa. É apenas o início de um trabalho que se prolongará por alguns anos, à semelhança do que ocorreu na instalação do Concílio Vaticano II, quando o papa João XXIII pediu socorro ao episcopado e a consultores para a proposição de temas a serem discutidos.

Lançada a ideia de uma reunião ecumênica, em 1959, era necessário organizar uma pauta para a renovação da Igreja. O Vaticano II durou três anos, de 1962 a 1965, após três anos de preparação. João XXIII morreu em junho de 1963, após a primeira sessão. Seu sucessor, Paulo VI, levou o projeto adiante.

Alguns dos principais temas do Vaticano II deverão ser retomados, acrescentando-se várias inovações às questões que revolucionaram a Igreja, 50 anos atrás. Sobressaem o papel dos bispos na condução das dioceses, a colegialidade entre o episcopado mundial e o papa, o ecumenismo e o diálogo com outras religiões, a formação do clero, a valorização da participação da mulher na pastoral e na administração da Igreja, assim como uma nova visão em relação a itens cruciais na vida cotidiana. Propõe-se também que as conferências episcopais participem da eleição do papa.

"A reaproximação com os ortodoxos está mais que madura para se chegar à unidade dos cristãos", afirmou d. Demétrio, registrando os grandes passos dados nos últimos anos na discussão teológica que se estendeu também aos protestantes, especialmente aos luteranos e anglicanos. Em seus primeiros seis meses de pontificado, o papa incentivou também o diálogo com judeus e muçulmanos, em defesa de valores comuns às três religiões monoteístas.

Outra inovação deverá ser a ampliação da participação dos leigos, homens e mulheres, na liturgia e na administração dos sacramentos. A ordenação de homens casados para levar a eucaristia a comunidades carentes de padres tem boas chances de ser aprovada. Não se trata de "distribuidores de hóstias", mas de sacerdotes ordenados, adverte o bispo de Jales. A ordenação de mulheres, reivindicação recorrente desde o Concílio Vaticano II, é uma questão ainda fora da pauta, pela resistência que provoca, sobretudo após o papa João Paulo II ter-se oposto a ela.

Antecipando-se ao prazo para a apresentação das sugestões, o papa fez várias nomeações no governo central da Igreja, confirmando e demitindo colaboradores. A mudança mais importante, anunciada em 31 de agosto, foi a demissão do secretário de Estado, cardeal Tarcisio Bertone, de 78 anos, que será substituído pelo arcebispo Pietro Parolin, de 58 anos, diplomata de carreira, que foi núncio apostólico na Venezuela.

Bertone declarou ter sido vítima de "uma rede de corvos e cobras". No cargo desde 2006, homem de confiança do papa emérito Bento XVI, seu nome foi envolvido em denúncias de escândalos, incluindo a manipulação de dinheiro no Banco do Vaticano. Ele foi muito criticado nas congregações gerais, reuniões de cardeais preparatórias para o conclave que elegeu Francisco em março. Sua substituição era esperada.

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