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Papa Francisco chega a 100 dias no Vaticano

Gestos surpreendentes do bispo de Roma alimentam a esperança de que o sucessor de Bento XVI realize uma profunda reforma na Igreja

JOSÉ MARIA MAYRINK, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2013 | 02h04

Os primeiros 100 dias de pontificado aumentaram as esperanças de que o papa Francisco promova uma reforma na Igreja. A primeira grande medida de Jorge Mario Bergoglio deve ocorrer a partir da primeira semana de outubro, quando ele mexerá na Cúria Romana, com a assessoria do grupo de oito cardeais incumbidos de examinar problemas e apresentar sugestões.

Até lá, não deverá haver grandes novidades, mas gestos surpreendentes do bispo de Roma - como ele prefere se apresentar - alimentam a esperança de que o sucessor de Bento XVI revitalize o impulso renovador do Concílio Vaticano II.

Essa é a expectativa de teólogos, sociólogos, historiadores e bispos de vanguarda, como os 18 autores de Francisco - Renasce a Esperança, uma coletânea de artigos recém-lançada pela editora Paulinas, em São Paulo. Todos manifestam entusiasmo com a eleição do ex-arcebispo de Buenos Aires, o jesuíta que o conclave de março foi buscar "quase no fim do mundo", quebrando a hegemonia dos muitos italianos e de alguns poucos europeus de outras nacionalidades que ocuparam nos últimos séculos a cadeira de Pedro.

A esperança despontou no momento em que, após o anúncio do "habemus papam" (temos o papa), foi revelado que ele havia escolhido o nome de Francisco, homenagem ao santo de Assis e garantia de que Bergoglio fazia, assim, uma opção pelos pobres. Ou por uma Igreja pobre voltada para os pobres, como o novo chefe da Igreja definiria nos dias seguintes. Os seguidores da Teologia da Libertação exultaram, principalmente porque às palavras se seguiram gestos e testemunhos.

Ao ser eleito, Francisco abriu mão de confortos e privilégios. Voltou da Capela Sistina para a Casa Santa Marta no ônibus dos cardeais do conclave, instalou-se num apartamento comum, foi pagar a conta no hotel em que se hospedara antes da eleição no centro de Roma, celebrou missa numa capela do Vaticano e conversou com os fiéis como um pároco amigo, trocou o papamóvel por um jipe aberto na Praça de São Pedro, pegou crianças no colo e abraçou portadores de deficiência nas audiências gerais.

São gestos surpreendentes, mas naturais, porque era assim que Bergoglio vivia em Buenos Aires, onde morava sozinho num apartamento, cozinhava a própria comida e andava de metrô. Quem o conhecia não estranhou, era o mesmo homem simples e espontâneo que gostava de visitar a periferia e se misturava aos pobres. Numa das congregações dos cardeais do pré-conclave, o futuro papa alertou para a necessidade de a Igreja "sair de si mesma e ir para as periferias" não só geográficas, mas também existenciais. Ou seja, os padres e bispos que cuidam do rebanho - diria semanas depois - precisam ter o cheiro de suas ovelhas.

Na manhã de 29 de maio, Francisco surpreendeu mais uma vez ao afirmar que, na Igreja, a grande família dos filhos de Deus, há também aspectos humanos, pois há defeitos, imperfeições e pecados naqueles que a compõem, pastores e fiéis. "Também o papa tem pecados - e muitos", acrescentou, conforme noticiou a Rádio Vaticano. Essas palavras remetem à cena da sacada da Basílica de São Pedro, quando Francisco, o novo papa, se inclinou e pediu que a multidão o abençoasse, antes de dar sua primeira bênção, no dia 13 de março.

Além da reestruturação da Cúria Romana, espera-se também - ou pelo menos se torce para isso - que haja mudanças na renovação da doutrina e da disciplina eclesiásticas. Os desafios são imensos e haverá resistência. Não haverá abolição de dogmas, que a Igreja considera verdades intocáveis, mas há leis e tradições que podem ser alteradas.

"Nesse contexto (da eleição de Francisco), será mais fácil também discutir abertamente e conseguir dar respostas aos famosos 'temas congelados', como celibato obrigatório, sexualidade - hétero e homo -, contracepção, aborto e tantos outros, que interessam tanto aos homens quanto, principalmente, às mulheres, que dentro da atual estrutura, patriarcal e concentradora de poder, dificilmente serão resolvidos", escreve a socióloga Lucia Ribeiro, uma das articulistas de Francisco - Renasce a Esperança.

Mais difícil ainda seria aprovar o sacerdócio feminino, para que as mulheres pudessem ser diaconisas e sacerdotisas. D. Angélico Sândalo Bernardino, que também participa do livro, não vê a ordenação de mulheres num horizonte próximo, mas afirma ser uma lamentável omissão "não chamar homens casados, de comprovada vida cristã familiar, profunda vivência comunitária, competência profissional, para serem ordenados presbíteros".

Encorajados pelo comportamento de Francisco, nesses primeiros cem dias de pontificado os partidários de reformas amplas acreditam na possibilidade de avanços mais ousados. Se o papa abre mão do Palácio Apostólico para morar na Casa Santa Marta, por que não se livra do fausto secular que a Igreja traz de antes da Idade Média?

Como lembra o historiador Eduardo Hoornaert, um dos fundadores da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (Cehila), esse era o sonho de d. Hélder Câmara. "Ele dizia, em conversas informais, que o papa faria bem em vender o Vaticano à Unesco e alugar um apartamento no centro de Roma", escreveu.

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