Andrew Medichini/Pool via REUTERS
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Papa Francisco chega aos Emirados Árabes Unidos com pedido por cumprimento de acordos no Iêmen

Pontífice é o primeiro líder católico a visitar a península arábica, berço do Islã, e quer compromisso de Abu Dabi por trégua no conflito iemenita

José Maria Mayrink, O Estado de S. Paulo

03 de fevereiro de 2019 | 18h43

ABU DABI - O papa Francisco chegou neste domingo, 3, aos Emirados Árabes Unidos (EAU) em uma visita histórica, a primeira de um chefe da Igreja Católica à península arábica, berço do Islã. Antes da viagem, o pontífice pediu que os Emirados cumpram os acordos fechados para uma trégua na cidade portuária de Hodeida, no Iêmen, ponto crucial para a chegada de ajuda humanitária. 

O conflito no Iêmen opõe as forças pró-governo, apoiadas desde 2015 pela Arábia Saudita e os EAU, aos rebeldes houthis xiitas, respaldados pelo Irã e com o controle de grandes regiões no país, como a capital Sanaa. A Human Rights Watch pediu ao papa que aproveite a sua visita para falar justamente da situação dos direitos humanos no Iêmen.

"Estou partido para os Emirados Árabes Unidos. Vou até lá como um irmão para escrever junto com eles uma página de diálogo e alcançarmos juntos os caminhos da paz", escreveu o papa no Twitter pouco antes de seu avião aterrissar no aeroporto de Abu Dabi.

A viagem ocorre uma semana  após o pontífice voltar do Panamá, onde presidiu a Jornada Mundial da Juventude (JMJ). O papa Francisco desembarcou às 23 horas (17 horas em Brasília) em Abu Dhabi e vai fazer uma visita apostólica de três dias aos Emirados Árabes Unidos. É sua 27ª viagem internacional fora da Itália.

A programação é basicamente religiosa. O pontífice foi recebido pelo príncipe herdeiro  xeque Mohammed bi Zaied Ala-Nahum e, em seguida, visitou a Grande Mesquita do xeque Zayed, principal templo muçulmano da cidade. Os Emirados Árabes Unidos são formados por sete Estados com administração autônoma.

O papa se reunirá com líderes muçulmanos para  discutir a paz na Península Arábica e celebrará em um estádio para um público estimado em 45 mil pessoas. Os Emirados têm 9,5 milhões de habitantes e cerca de 135 mil católicos, a maioria proveniente de países da Ásia, como Filipinas e Índia. 

Francisco deverá um apelo aos países árabes em favor da paz no Iêmen, que está há cinco anos em guerra com uma coalizão liderada pela Arábia Saudita. A guerra  já matou cerca de 85 mil crianças, número divulgado pela ONU e citado neste domingo pelo papa, na Praça de São Pedro, minutos antes de embarcar no Aeroporto de Fiumicino.        

Diferentemente da vizinha Arábia Saudita, que proíbe a prática de outras religiões que não sejam o Islã, os Emirados Árabes Unidos querem projetar uma imagem de país tolerante. As autoridades controlam as práticas religiosas e reprimem a contestação política e a exploração da religião, inclusive pelos adeptos de um Islã político, encarnado pela Irmandade Muçulmana.

Anwar Gargash, ministro das Relações Exteriores, fez alusão a isso ontem em um tuíte no qual critica o Catar, boicotado pelos EAU e três de seus aliados, que o acusam de apoiar islamitas radicais, o que Doha desmente.

O ministro destacou a diferença entre o "mufti do terrorismo", em referência ao religioso Yusef al-Qardaui, considerado chefe espiritual da Irmandade Muçulmana, que é protegida pelo Catar, e o seu país, que acolhe um dos símbolos de "tolerância e amor", em referência ao papa e ao imã de Al-Azhar.

A organização Anistia Internacional pediu ao papa que coloque sobre a mesa em Abu Dhabi a questão do respeito aos direitos humanos e criticou que muitos dissidentes permaneçam detidos no país.

Desde o início do seu pontificado, o papa viajou a vários países cuja população é majoritariamente muçulmana, como Egito, Azerbaijão, Bangladesh e Turquia. Em março viajará ao Marrocos. / COM AFP

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