Papa Francisco deve estender mudanças à Cúria

A espontaneidade do papa Francisco, nos primeiros dias de pontificado, está exigindo uma adaptação rápida do cerimonial, da diplomacia e da segurança do Vaticano a um comportamento informal e imprevisível. As surpresas deverão ser maiores a partir da hora em que ele mexer na estrutura das congregações, comissões, conselhos e outros órgãos menores da Cúria Romana, até agora sem alterações, mas alvo de profunda reforma.

JOSÉ MARIA MAYRINK - ENVIADO ESPECIAL,

24 de março de 2013 | 09h34

A reforma do governo central da Santa Sé é uma reivindicação geral dos cardeais, manifestada  tanto em declarações públicas como nas sessões fechadas das congregações gerais preparatórias do conclave. É certo que começará pela Secretaria de Estado, presidida pelo cardeal Tarcísio Bertone, que deverá ser substituído.

Ao contrário de Bento XVI, que anunciou a nomeação de novos auxiliares imediatamente após ter sido eleito, em 2005, Francisco preferiu manter interinamente toda a equipe do pontificado anterior, para depois  fazer uma reestruturação em bloco. Os atuais prefeitos continuam nos cargos, mas sem saber se serão reaproveitados.

Daí o silêncio de alguns cardeais, enquanto não sai a reforma. O brasileiro João Braz de Aviz, prefeito da Congregação para os  Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica , crítico da Cúria nas reuniões pré-conclave, foi muito arredio à imprensa antes da eleição de Francisco e continuou discretíssimo depois, sob a alegação de que, nesse momento, era prudente nada falar.

Não se sabe como será a nova equipe de Francisco, mas pode-se imaginar que ele vá inovar, mesmo que convoque auxiliares de diferentes tendências. O cardeal-arcebispo de São Paulo, d. Odilo Pedro Scherer, que foi muito cotado nas apostas para a sucessão de Bento XVI, poderá ser convocado para assumir uma congregação.

É possível  também que d. Cláudio Hummes, prefeito emérito da Congregação para o Clero,  venha a assumir a função de conselheiro especial.   Em entrevista ao Estado, ele admitiu estar à disposição de Francisco, mas acrescentou que normalmente os eméritos ou aposentados não voltem à ativa. D. Cláudio tem 78 anos.

Os agentes  responsáveis pela proteção do pontífice e a polícia italiana, que age em parceria com o esquema da Santa Sé,  levaram já alguns sustos, quando o papa argentino fugiu das normas, exigindo deles uma reação improvisada. Por exemplo, na igreja de Sant’Ana, onde Francisco  saiu do ritual para cumprimentar os fiéis, paroquianos ou não,que puderam abraçá-lo e conversar com ele.

 Na terça-feira, Francisco mandou parar o papamóvel , um jipe aberto, desceu e foi abraçar e beijar um deficiente no meio da multidão. O papa dava giros pela praça, por mais tempo que o usual, antes de se  dirigir à sacristia da Basílica de São Pedro, para vestir os paramentos litúrgicos da missa de inauguração do pontificado.

A segurança  ficou aparentemente assustada, porque ainda sente o trauma do atentado sofrido por João Paulo II em 1981, enquanto ele percorria de papamóvel  as passarelas da mesma Praça de São Pedro. O esquema de vigilância e controle é atualmente muito mais rígido, mas não prevê gestos inesperados do papa.

“É a segurança, que está preparada para isso, que terá de se adaptar ao estilo de Francisco, pois ele com certeza fará o que quiser”, disse o porta-voz da Santa Sé, padre Federico Lombardi, ao ser interrogado sobre  os problemas provocados pelas improvisações do papa argentino.

A opção franciscana pelo uso de sapatos pretos, em vez dos vistosos calçados vermelhos de Bento XVI, que foram confundidos com a grife Prada, até se descobri r que eram fabricados por um sapateiro peruano de uma rua vizinha do Vaticano, parece ser apenas uma curiosidade, mas pode ser indício de uma preferência por hábitos mais simples.

Já se notou que Francisco não costuma cantar nas cerimônias litúrgicas, nem mesmo numa missa solene como o foi a de inauguração do pontificado, dia 19, embora não se saiba se é só uma questão de gosto ou se é por que não saiba cantar. A dúvida  deve acabar agora com as celebrações da Semana Santa, do  Domingo de Ramos hoje até o Domingo de Páscoa, dia 31.

Francisco inovou já no encerramento do conclave, quando pôs  o solidéu vermelho de cardeal  na cabeça do arcebispo Lorenzo Baldisseri, secretário da Congregação para os bispos e ex-núncio apostólico no Brasil, ao receber de suas mãos o solidéu branco de papa. A iniciativa foi  surpresa, porque havia ocorrido pela última vez em 1958, quando João XXII foi eleito. Significa que o papa estava  dando a Baldisseri  o título de cardeal, a ser confirmado no próximo consistório.

O primeiro papa latino-americano não se prende também a protocolos diplomáticos. Atropelando a burocracia da Secretaria de Estado, ele  confirmou à presidente Dilma Rousseff, durante audiência privada na quarta-feira, que estenderia a Aparecida (SP) a viagem prevista para o Rio de Janeiro, em julho, para a Jornada Mundial da Juventude.

O  presidente da Conferência Nacional  dos Bispos do Brasil (CNBB) ,D. Raymundo Damasceno Assis, que havia convidado Francisco a visitar Aparecida, sede de sua arquidiocese, ficou sabendo da decisão pela entrevista de Dilma. Como estava  fora do protocolo  oficial, padre Lombardi disse que não podia confirmar Aparecida.

Francisco lembra o estilo paternal de João XXII I e o jeito sorridente de João Paulo I. Só que vai além. Ele é um papa que abraça  as pessoas, cumprimenta mulheres com beijinho no rosto e conversa com descontração entre risos abertos. Esse jeito amigo está conquistando os italianos, que identificam nele o sangue patrício dos Bergoglio  da região do Piemonte.

No plano pastoral, Francisco corresponde aos anseios daqueles que esperavam do conclave a escolha de um pastor. É comovente a decisão do papa de celebrar uma das cerimônias de Quinta-feira Santa  lavando os pés de 12 internos, representando os apóstolos, numa casa de detenção  de Roma.

 Entre tantas novidades e surpresas, não se espere que Francisco altere normas da doutrina moral da Igreja. Questões como aborto, eutanásia, união de homossexuais, uso de contraceptivos e admissão à eucaristia de casais de segunda união continuarão intocáveis. Poderá haver, no entanto, maior elasticidade pastoral no acolhimento de católicos que enfrentam essas situações.

Tudo o que sabemos sobre:
PapaFranciscoVaticanoCúriaSanta Sé

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.