REUTERS/Max Rossi
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Papa Francisco pede "respeito a todos os grupos étnicos" em Mianmar

Pontífice evita, porém, se referir diretamente à questão dos rohingya, minoria muçulmana que, segundo a ONU, tem sido vítima de perseguição por parte das autoridades birmanesas; mais de 620 mil fugiram para Bangladesh

O Estado de S.Paulo

28 Novembro 2017 | 12h57

NAYPYIDAW - O papa Francisco pediu nesta terça-feira, 28, na capital de Mianmar, Naypyidaw, "respeito a todos os grupos étnicos" do país. O pontífice evitou, porém, pronunciar a palavra "rohingya" para se referir à minoria muçulmana que tem sido vítima de perseguição por parte das autoridades birmanesas - o que ocasionou o deslocamento forçado de mais de 620 mil rohingyas para Bangladesh. De acordo com a Organização das Nações Unidas, a etnia é vítima de "limpeza étnica" no território birmanês.

Mianmar não reconhece o direito a cidadania dos rohingya oficialmente desde 1982, quando a ditadura militar que governou o país entre 1962 e 2011 outorgou uma lei de nacionalidade que não conferiu esse direito à minoria islâmica. As autoridades birmanesas se referem aos rohingyas como "bengalis". 

A ONU estima que cerca de 1 milhão de rohingyas viviam no Estado de Rakhine, em Mianmar, antes do deslocamento forçado. 

+ Francisco se reúne com militar responsabilizado pela perseguição aos rohingya em Mianmar

Contrariamente a sua postura habitual, o pontífice evitou falar diretamente da violência contra os rohingya, cujo êxodo para Bangladeh começou no final de agosto, após a polícia, o Exército e milícias budistas de Mianmar começarem a atacar a minoria muçulmana, sob a justificativa de controlar uma suposta insurgência. O que se seguiu foi a fuga de centenas de milhares de civis para o país vizinho, escapando de abusos, assassinatos e torturas.

No discurso pronunciado diante das autoridades civis de Mianmar em Naypyidaw, Francisco pediu um "compromisso pela justiça e respeito aos direitos humanos".

As autoridades de Mianmar negam as acusações de assassinato, estupro, tortura e deslocamento forçado contra os rohingya.

O papa se pronunciou após reunião com a líder birmanesa Aung San Suu Kyi no palácio presidencial, que durou 45 minutos, no segundo dia da primeira visita de um pontífice a Mianmar. No encontro, Suu Kyi - que é Nobel da Paz e tem sido duramente criticada por não evitar a violência contra os rohingya - se comprometeu a proteger os direitos humanos e promover a tolerância para todos. "Nosso governo tem como objetivo realçar a beleza de nossa diversidade e reforçá-la, ao incentivar a tolerância e garantir a segurança para todos", declarou a líder de facto do país.

A Igreja Católica birmanesa tem defendido Suu Kyi das inúmeras críticas que ela tem sofrido. A cidade britânica de Oxford, onde Suu Kyi viveu na juventude, estudou e criou seus filhos, retirou um título honorífico entregue a ela em 1997. "Hoje, tomamos a medida sem precedentes de despojá-la da mais alta honra da cidade por sua falta de ação diante da opressão da minoria dos rohingyas", afirma o texto, aprovado por unanimidade.

Temores da Igreja birmanesa

Em agosto, o papa Francisco havia expressado "toda proximidade" ao se referir aos "irmãos rohingyas". "Todos nós pedimos ao Senhor que os salve e que inspire homens e mulheres de boa vontade a ajudá-los a ter todos seus direitos respeitados", declarou na época.

Mas, apreensiva com as possíveis afirmações da fala do pontífice em Mianmar, a Igreja Católica birmanesa havia solicitado que Francisco não contrariasse a população predominantemente budista do país, usando a palavra rohingya, considerada tabu por lá.

O arcebispo de Rangum, Charles Bo, recomendou que o pontífice evitasse esse termo e adotasse a expressão "muçulmanos do estado de Rakhine" no lugar de rohingyas. Os budistas de Mianmar utilizam o termo bengali para se referir à minoria islâmica porque  os rohingyas são considerados imigrantes ilegais vindos de Bangladesh, apesar de essa população viver no território birmanês há várias gerações.

"Mesmo sem dizer a palavra, sabemos que se trata dos rohingyas. Devemos apoiar os pobres, aqueles que sofrem", declarou uma religiosa católica da Tailândia que viajou para Rangum, a maior cidade birmanesa, onde o papa rezará missa na quarta-feira, 29.

"É claro que eu desejaria que o papa usasse a palavra rohingya", disse à Aung Kyaw Moe, um ativista rohingya. "Pode ser que não use aqui, mas use no fim de seu viagem, quando estiver em Bangladesh", acrescentou. / AFP

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