Papa Francisco recebe Cristina quatro meses antes de eleições

Discute-se na Argentina se o pontífice deveria deixar-se fotografar com políticos que usam os encontros em outdoors de campanha

Rodrigo Cavalheiro - Correspondente em Buenos Aires, O Estado de S. Paulo

07 de junho de 2015 | 20h38

O papa Francisco recebeu neste domingo no Vaticano a presidente Cristina Kirchner pela quarta vez em dois anos. A pré-disposição do líder católico para encontrar-se ciclicamente com sua conterrânea desperta divergências na Argentina, a quatro meses da eleição presidencial.

Há três meses, Francisco reclamava que se sentia usado pela política. "Sabemos que ele atrasou um pouco este encontro, diante de pedidos insistentes da presidente. Mas ele não poderia negar uma reunião com um chefe de Estado, menos com a presidente de seu país", disse ao Estado Sergio Rubin, coautor de El Jesuita, biografia escrita antes de Jorge Bergoglio tornar-se Francisco, em 13 de março de 2013. 

O encontro de domingo ocorreu em uma sala modesta e com uma comitiva pequena. Ainda que não tenha tido a pompa dos quatro primeiros, deu-se a três dias do fim do prazo para alianças na Argentina, a dois meses das prévias que na Argentina funcionam como uma confiável pesquisa eleitoral e a quatro meses da eleição presidencial de outubro. 

A campanha eleitoral argentina fez Francisco passar por constrangimentos nos últimos meses. Em uma das viagens de Cristina, um integrante da facção política La Cámpora, do núcleo de jovens kirchneristas, desenrolou uma camiseta do grupo diante do pontífice, que riu desconcertado. O último episódio marcante foi o do juiz Roberto Carlés, que o kirchnerismo quer emplacar como ministro na Corte Suprema. Levado a Roma, ele voltou com uma foto ao lado do "argentino mais importante do mundo", como a população costuma chamá-lo. Discute-se também se o papa deveria deixar-se fotografar com políticos locais, que transformam imagens de breves encontros em outdoors de campanha.

"O que ocorre é que qualquer deputado ou prefeito vai a Roma, entra na fila para vê-lo e volta com uma foto para publicar no jornal regional 'fui recebido pelo papa', mas não bem é assim. Quando ele se referiu a ser usado, falava também da oposição", pondera Rubin.

Há dois meses, o jornalista e apresentador argentino Alfredo Leuco, quando se soube da última visita da presidente ao papa, escreveu uma dura carta aberta em que mostrava sua inconformidade com a decisão e pedia que todos candidatos a presidente fossem recebidos. No fim do dia, ao ouvir recados em sua caixa de mensagens no telefone, havia uma do papa agradecendo pelas críticas "sem rancor".

A iniciativa papal foi interpretada pela oposição como uma forma de indicar a Cristina que, embora a recebesse, sabia da força dessas imagens na política local. O semblante sorridente de Francisco está em centenas de produtos, de botons, camisetas e bonecos em tamanho real até o ônibus aberto que percorre os bairros turísticos de Buenos Aires.

Especialistas também teorizam sobre os fatores que reaproximaram os dois líderes. O arcebispo Jorge Bergoglio, identificado com o peronismo, enfrentou um período conturbado com o kirchnerismo, corrente peronista fundada por Néstor ao assumir o poder em 2003 e aprofundada por Cristina nos últimos oito anos.

Em 2004, na missa anual celebrada pelo arcebispo na data pátria argentina, Bergoglio convocou os políticos a serem humildes. Néstor interpretou como um recado direto e deixou de ir a celebração de Bergoglio nos anos seguintes, transferindo toda a comitiva presidencial para missas em capitais do interior. A "vingança" de Néstor foi mantida por Cristina, o que levou a imprensa local considerar o kirchnerismo e o arcebispo inimigos.

Quando Bergoglio foi ungido, a celebração nas ruas de Buenos Aires foi semelhante à de um Mundial de futebol. Parte da oposição viu a escolha como um sinal divino do fim do kirchnerismo. "Cristina foi muito fria nas primeiras horas", lembra Rubin. Ela saudou inicialmente um papa "latino-americano" - mas logo percebeu que seria uma estratégia ruim manter essa briga, por mais que o kirchnerismo tenha a tática do enfrentamento em seu DNA.

Conforme Andrés Beltramo, autor do livro Quiero Lío (Quero confusão, em tradução livre), outra biografia de Francisco, ao papa não convinha manter o choque por questões estratégicas. Uma ruptura institucional argentina atrapalharia seus planos de colocar o Vaticano como protagonista em temas maiores, como a reaproximação entre Cuba e EUA, ou sua viagem de 5 a 13 de julho a Equador, Bolívia e Paraguai. Chile, Uruguai e Argentina ficam para 2016. 

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