Vatican News/AFP
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Papa Francisco tem encontro histórico com aiatolá Ali al-Sistani no Iraque

Após reunião, líder da Igreja Católica condenou o 'terrorismo que abusa da religião': 'hostilidade, extremismo e violência não nascem em um coração religioso'

Redação, O Estado de S.Paulo

06 de março de 2021 | 04h45
Atualizado 06 de março de 2021 | 11h29

NAJAF - O Papa Francisco se reuniu neste sábado, 6, com o aiatolá Ali al-Sistani, em um encontro histórico no Iraque. A reunião ocorreu na cidade sagrada de Najaf, no sul do país, em meio a uma viagem turbulenta e arriscada, e marcou a primeira vez que um papa se encontrou com um líder religioso xiita. No encontro, os dois transmitiram mensagens de coexistência pacífica e pediram que iraquianos islâmicos acolham a minoria cristã, alvo de perseguição no país. 

Depois da reunião, em um encontro ecumênico na antiga cidade de Ur, Francisco disse que judeus, cristãos e muçulmanos "olham para o mesmo céu" e condenou o "terrorismo que abusa da religião". "Neste lugar, onde a fé nasceu, na terra de nosso pai Abraão, afirmemos que Deus é misericordioso e que a maior blasfêmia é profanar seu nome ao odiar nossos irmãos e irmãs", disse o pontífice. "Hostilidade, extremismo e violência não nascem em um coração religioso: são traições à religião".

O aiatolá Ali al-Sistani disse que as autoridades religiosas têm um papel importante na proteção dos cristãos do Iraque, que devem viver em paz e desfrutar dos mesmos direitos que os outros cidadãos. Francisco agradeceu a al-Sistani por ter "levantado sua voz em defesa dos mais fracos e perseguidos" durante os momentos mais violentos da história recente da nação árabe.       

Papa reza pela paz com representantes de minorias religiosas

Ur é considerado o local de nascimento de Abrãao, o patriarca bíblico reverenciado por cristãos, muçulmanos e judeus. O Vaticano inicialmente havia sinalizado que um representante da fé judaica também participaria do evento, mas a Igreja teve dificuldades em encontrar convidados, já que restam poucos judeus no país.

Francisco fez uma oração ecumênica em frente à chamada casa de Abraão e a um templo zigurate em formato de pirâmide, imponente santuário sumério em formato de pirâmide, construído há 4 mil anos. Participaram da cerimônia lideranças da minoria yazidis, além de muçulmanos, xiitas e sunitas, e zoroastristas. 

Durante a oração, o pontífice novamente defendeu que a liberdade de consciência e a liberdade religiosa sejam respeitadas em todos os lugares.  "São direitos fundamentais, porque tornam o homem livre para contemplar o céu para o qual fomos criados", disse.

O papa lembrou a perseguição étnica e religiosa que muitas comunidades sofreram durante a invasão dos terroristas ao Iraque em 2014. Ele pediu para orar por "todos aqueles que sofreram tanto e por aqueles que ainda estão desaparecidos e sequestrados, para que logo voltem para suas casas". 

O pontífice ressaltou que, apesar do terrorismo que invadiu o norte do país,e que destruiu parte da herança cultural do Iraque, "há jovens voluntários muçulmanos de Mosul que ajudaram a reconstruir igrejas e mosteiros, construindo amizades fraternas sobre os escombros do ódio. Há cristãos e muçulmanos que hoje restauram mesquitas e igrejas juntos". 

Francisco disse ainda que diante das "tormentas que estamos passando, o isolamento não nos salvará, não nos salvará a corrida para reforçar armamentos e construir muros. Pelo contrário, nos tornará cada vez mais distantes e irritados". O papa pediu que todas as religiões orem "juntas pelo mesmo objetivo". 

Para o Para Francisco, são as religiões que devem cobrar mais fortemente "os responsáveis pelas nações para que a crescente proliferação de armas dê lugar à distribuição de alimentos para todos". O líder da Igreja Católica pediu que políticos deem "voz ao grito dos oprimidos e dos desprezados do planeta. Muitos carecem de pão, remédios, educação, direitos e dignidade”.

A televisão estatal Ehbariya mostrou o grande comboio do papa passando pela cidade de Ur, onde crianças se enfileiraram em uma rua e agitaram bandeiras do Iraque e do Vaticano para o líder dos católicos do mundo.

Quem é Ali al-Sistani

O encontro com Francisco ocorreu na residência de Sistani, a portas fechadas. O aiatolá de 90 anos é uma das figuras mais importantes do islamismo xiita, dentro e fora do Iraque. Ele exerce enorme influência sobre a política e tem um papel moderador no cenário iraquiano. Ele estimulou os cidadãos do país árabe a irem às urnas pela primeira vez em 2005, além de ter ajudado a reunir centenas de milhares de homens para lutar contra o Estado Islâmico em 2014 e derrubar o governo iraquiano nas manifestações em massa de 2019.

Sistani raramente faz reuniões e recusou negociações com os atuais governantes do Iraque e ex-primeiros-ministros do país, segundo autoridades próximas a ele. O religioso concordou em se encontrar com o papa com a condição de que nenhuma autoridade iraquiana estivesse presente, disse uma fonte do gabinete do presidente à Reuters.

Na manhã de sábado, o pontífice, viajando em um Mercedes-Benz à prova de balas, parou ao em uma rua estreita de Najaf, que culmina na cúpula dourada do Santuário Imam Ali, um dos locais mais reverenciados no Islã xiita. Ele então caminhou alguns metros até a casa de al-Sistani. O papa tirou os sapatos antes de entrar no quarto do religioso.

Durante o encontro, foi servido chá e uma garrafa plástica de água. Al-Sistani falou durante a maior parte da reunião. Francisco fez uma pausa antes de sair do quarto do aiatolá para dar uma última olhada no local, disse uma fonte que testemunhou o evento.

Visita do papa

Durante seu pontificado, o papa visitou diversos países predominantemente muçulmanos, incluindo Turquia, Jordânia, Egito, Bangladesh, Azerbaijão, Emirados Árabes Unidos e territórios palestinos, usando essas viagens para pedir o diálogo inter-religioso.

Sua viagem ao exterior mais arriscada até agora teve início na sexta-feira, 5. A visita ao Iraque teve a segurança mais rígida já registrada para uma viagem papal. O objetivo de Francisco é apelar aos líderes do país e ao povo para que acabem com a violência e os conflitos religiosos.

Anteriormente, Francisco, de 84 anos, fez um apelo para que os iraquianos dessem uma chance aos esforços de paz, durante uma reunião de oficiais e diplomatas iraquianos no palácio presidencial. Mais tarde, ele prestou homenagem às pessoas mortas em ataques motivados pela religião, visitando uma igreja de Bagdá onde homens armados islâmicos mataram cerca de 50 fiéis em 2010.

Depois de voar de volta a Bagdá, ele deve fazer uma missa na Catedral Caldéia de São José./ WASHINGTON POST, REUTERS, AP, EFE e AFP

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