Papa Francisco tenta resgatar diplomacia do Vaticano

Igreja católica atua como mediadora em seis países da América Latina; estímulo ao diálogo é a principal política

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE/GENEBRA, O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2014 | 02h03

Por determinação do papa Francisco, a diplomacia do Vaticano passou a atuar como mediadora de crises na América Latina. Em pelo menos seis países da região, a Igreja está assumindo cada vez mais o papel de ator político.

A Venezuela, envolvida em um impasse entre o governo de Nicolás Maduro e a oposição, está entre os casos mais recentes abordados pela Santa Sé. A mediação em Caracas, no entanto, é apenas um exemplo da nova diplomacia desenhada por Francisco. A estratégia faz parte de um esforço para dar à Igreja maior relevância política e o plano começa pela região que o papa Francisco conhece melhor e mais intimamente.

Além da Venezuela, a Igreja passou a atuar como negociadora na Colômbia, em El Salvador, no Haiti, na Nicarágua e na República Dominicana. A ideia é abrir espaços para o diálogo.

A tarefa de implementar a nova diplomacia foi entregue ao secretário de Estado do Vaticano, Pietro Parolin, experiente diplomata da Santa Sé e considerado profundo conhecedor da América Latina. Fluente em espanhol, o italiano ocupava o posto de núncio apostólico na Venezuela.

"O objetivo da diplomacia papal é construir pontes para promover o diálogo e usar as negociações como um meio para solucionar conflitos, espalhar a fraternidade, lutar contra a pobreza e construir a paz", declarou Parolin em um artigo publicado este ano. "O papa não tem outros interesses em jogo."

Na exortação apostólica Evangelii Gaudium (A Alegria do Evangelho, em latim), que serve como uma espécie de plano de governo de Francisco, o papa deixa claro que a Igreja tem um papel político e deve estabelecer o diálogo.

Um dos casos mais exemplares da ação da Igreja ocorreu no Haiti, onde, há dois anos, o processo político eleitoral passava por um impasse. Em seu primeiro anúncio de novos cargos eclesiásticos, no início do ano, Francisco nomeou o haitiano Chibly Langlois cardeal. A iniciativa tinha como objetivo dar ao mediador a capacidade de dialogar no mais alto nível político.

Um mês depois, coube ao novo cardeal costurar um acordo entre os diferentes partidos para estabelecer a forma de trabalho do Tribunal Eleitoral, um ponto fundamental para que as eleições pudessem ocorrer.

Apoiado pelo papa, Langlois promoveu diálogos que resultaram num acordo político. As eleições foram marcadas para outubro e a Igreja ganhou um novo status na região. "Não há perdedores quando há diálogo", disse o cardeal.

Estratégia. As ações do Vaticano na América Latina não ocorrem por acaso. Segundo fontes diplomáticas na Santa Sé, elas fazem parte de uma estratégia mais ampla de Francisco para reposicionar a Igreja no cenário mundial.

No início do ano, em um encontro com embaixadores do mundo inteiro, o papa deixou clara sua intenção. "Estamos prontos, na Secretaria de Estado em particular, a cooperar com seus países para promover a fraternidade", declarou o pontífice.

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