IRAQI PRIME MINSTER'S OFFICE FACEBOOK PAGE / AFP
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Sob forte segurança, papa se torna o 1º chefe da Igreja Católica a visitar o Iraque

Com uma viagem de quatro dias, Francisco termina um longo período de isolamento, fortalece laços com muçulmanos xiitas e tenta se aproximar de uma população cristã iraquiana que vem sendo dizimada por anos de conflito sectário

Redação, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2021 | 16h24
Atualizado 05 de março de 2021 | 22h11

BAGDÁ - O papa Francisco fez nesta sexta-feira, 5, um retorno audacioso ao cenário mundial em meio à pandemia de coronavírus, quando se tornou o primeiro líder da Igreja Católica a visitar o Iraque. A viagem tenta aparar as arestas de um país ferido pelo sectarismo, pela ocupação estrangeira e marcado pela perseguição de minorias, incluindo seu próprio rebanho cristão.

Logo no primeiro pronunciamento, feito para autoridades no palácio presidencial, em Bagdá, Francisco pediu o fim da violência. “Venho como peregrino da paz, em nome de Cristo. Quanto rezamos ao longo destes anos pela paz no Iraque”, disse. “E Deus escuta sempre. Cabe a nós ouvi-Lo. Calem-se as armas!”

Entre fortes medidas de segurança e com máscara devido à covid-19, o papa de 84 anos viajou como "um peregrino da paz" para confortar uma das mais antigas comunidades cristãs do mundo marcada pela violência e pela pobreza. Bagdá garantiu que adotou todas as medidas de segurança "terrestres e aéreas".

A passagem pelo Iraque é a 33.ª viagem internacional do papa, que cumpre no país, até segunda-feira, uma agenda de encontros com autoridades e religiosos cristãos e muçulmanos. A turbulência geopolítica, a pandemia e o próprio ineditismo de uma visita papal ao Iraque tornam a viagem histórica e carregada de simbolismos.

Durante sua estadia, após percorrer 1.445 km especialmente pelo ar para evitar as áreas onde os extremistas se escondem, o pontífice argentino estenderá a mão aos muçulmanos e se reunirá com o grão-aiatolá Ali Sistani, a autoridade máxima xiita.

O chefe dos 1,3 bilhão de católicos do mundo mencionou todas as questões candentes no Iraque diante de seus principais líderes, entre eles o presidente Barham Saleh, que lhe enviou um convite oficial para esta visita sem precedentes.

'Chega de violência'

"Chega de violência, de extremismos, de facções, de intolerâncias", disse o papa. Francisco pediu um basta também para a "corrupção", o motivo pelo qual centenas de milhares de iraquianos protestaram no final de 2019. E defendeu que o país pare de reprimir jovens que pedem justiça. "É preciso construir a justiça", destacou.

"Que nenhum deles seja considerado um cidadão de segunda classe", pediu, se referindo aos cristão, que são 1% da população do país muçulmano, e aos yazidis, minoria perseguida pelo grupo extremista Estado Islâmico (EI) que vendeu milhares de suas mulheres em "mercados de escravos". O pontífice denunciou "uma barbárie insensata e desumana" promovida no Iraque, a antiga Mesopotâmia, o berço da civilização.

O argentino relembrou "a muito antiga presença de cristãos nessa terra", onde segundo a tradição nasceu Abraão, e defendeu "a participação deles na vida pública" como "cidadãos que desfrutam plenamente de direitos, liberdade e responsabilidade". Após a etapa política, o papa iniciou a parte mais espiritual e popular de sua viagem.

O programa começou no final do dia com uma oração na catedral Nossa Senhora da Salvação, uma igreja católica no centro de Bagdá que foi palco em 2010 da tomada de reféns mais mortal contra os cristãos no Iraque - com 53 mortos. Diante de um grupo reduzido de pessoas, o papa lembrou os "irmãos e irmãs que morreram no atentado terrorista (...) e cuja beatificação está em processo" e agradeceu ao clero iraquiano pela sua presença e proximidade com os cristãos.

Depois, viajará para Nayaf, Ur, Erbil, Mossul e Qaraqosh. Em cada etapa, verá apenas algumas centenas de fiéis, com exceção da missa de domingo em um Estado do Curdistão, que contará com a presença de milhares. 

Nas tensões entre Irã e Estados Unidos no Iraque, um dos pequenos grupos que costuma reivindicar lançamentos de foguetes contra alvos americanos anunciou uma trégua durante a visita do papa. Sobre as interferências estrangeiras, Francisco pediu "às nações para não impor seus interesses políticos ou ideológicos" no Iraque.

Para Saad al-Rassam, cristão de Mossul - cidade que continua em reconstrução após a guerra contra o EI -, a viagem acontece no momento certo no país cuja pobreza afetou 40% da população em 2020. "Esperamos que o papa explique ao governo que deve ajudar seu povo", disse. Apesar das dificuldades em questões de segurança e economia sofridas por 40 milhões de iraquianos, os cristãos denunciam discriminações e a pouca ajuda do governo para recuperar suas casas e suas terras.

Mão estendida ao xiismo

Apesar de tudo, o papa chamará os cristãos para permanecer ou retornar ao Iraque, onde restam apenas 400 mil fiéis, em comparação com 1,5 milhão há 20 anos. De acordo com a fundação Ajuda à Igreja em Perigo, apenas 36 mil dos 102 mil cristãos que deixaram Nínive retornaram. Entre eles, um terço afirma que planeja deixar o país por medo das milícias e devido ao desemprego, corrupção e discriminação.

No sábado, pela primeira vez na história, o papa será recebido na cidade sagrada de Najaf, no sul, por Ali Sistani, um homem de saúde frágil de 90 anos que nunca foi visto em público. O papa também participará em Ur, terra natal de Abraão, pilar das três religiões monoteístas, em uma oração com representantes xiitas, sunitas, yazidis e sabeus.

Alto risco

Ao escolher o Iraque devastado pela guerra – e agora ameaçado pela covid – como seu primeiro destino após um período de isolamento no Vaticano, Francisco mergulha diretamente nas questões de guerra e paz, pobreza e conflitos religiosos em uma terra bíblica. 

De forma mais ampla, a viagem também transmite a mensagem de que, após um ano isolado no Vaticano,  Francisco queria arriscar e passar um tempo com aqueles que mais sofreram. “Esta viagem é emblemática”, disse o papa, no avião. “É um dever para com uma terra martirizada por tanto tempo.”

Após décadas de ditadura e sanções internacionais, a invasão liderada pelos EUA – que derrubou Saddam Hussein – criou um vácuo de poder e favoreceu a consolidação da Al-Qaeda no Iraque. O país entrou em guerra civil e o Estado Islâmico conquistou um terço do território, que o governo ainda tenta recuperar.

Hoje, em Bagdá, o papa percorreu ruas vazias e fechadas em uma bolha de extraordinária segurança. Helicópteros militares voavam e soldados fortemente armados guardavam avenidas decoradas com bandeiras do Vaticano e cartazes com os dizeres: “A Mesopotâmia cumprimenta você”. 

A visita do papa coincide com uma volta recente dos ataques suicidas, de foguetes e tensões geopolíticas. Alguns admiradores de Francisco temem ainda que a viagem provoque aglomerações e aumente o número de casos de coronavírus no país. Seus conselheiros, no entanto, garantem que medidas de distanciamento social serão seguidas e argumentam que a viagem era necessária para aproximar Francisco dos cristãos iraquiano. / NYT, REUTERS, AP e AFP

 

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