Papa justifica decisão no caso do bispo que negou Holocausto

Bento XVI afirmou que não esperava tantas críticas pela suspensão da excomunhão de Richard Williamson

Assimina Vlahou, BBC

12 de março de 2009 | 13h30

O papa Bento XVI admitiu erros no caso da suspensão da excomunhão do bispo britânico Richard Williamson, que se negou a reconhecer em uma entrevista no ano passado a extensão total do Holocausto - a eliminação sistemática de milhões de judeus pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial.   Veja também: Papa admite erro ao revogar excomunhões de bispos, diz jornal  Perguntas e respostas: A polêmica do bispo que nega o Holocausto  Vídeo: A polêmica entrevista do bispo Williamson Blog de Richard Williamson   Em carta endereçada aos bispos católicos de todo o mundo, divulgada nesta quinta-feira, 12, Bento XVI explica porque suspendeu a excomunhão de quatro bispos ultraconservadores da fraternidade São Pio X, entre eles Williamson, e diz que não esperava receber tantas críticas, principalmente dentro da própria igreja.   Numa raríssima demonstração de emoções pessoais, o papa também alerta na carta que a Igreja corre o risco de "se morder e devorar" por causa de polêmicas internas.   "Fiquei entristecido pelo fato de que mesmo católicos que afinal de contas poderiam ter uma melhor compreensão da situação tenham achado que tinham de me atacar com aberta hostilidade", disse o papa.   É muito incomum que o papa tenha de explicar suas ações perante seus bispos "a posteriori", e ainda mais para admitir um erro.A decisão foi, na avaliação do papa, um gesto de aproximação, um convite para que os bispos retornassem à igreja oficial. Isto foi possível apenas depois que eles reconheceram a autoridade do papa."A suspensão da excomunhão dos quatro bispos, consagrados em 1988 pelo arcebispo (dissidente francês, Marcel) Lefebvre sem mandato da Santa Sé, suscitou dentro e fora da Igreja Católica uma discussão de tal veemência que há muito tempo não se experimentava", escreveu Bento XVI. "Uma desventura imprevisível para mim foi o fato de que o caso de Williamson foi o destaque principal na remissão da excomunhão. O gesto discreto de piedade para com quatro bispos ordenados de forma válida, mas sem legitimidade, repentinamente pareceu algo completamente diferente: um repúdio à conciliação entre cristãos e judeus." "Um gesto de reconciliação com um grupo eclesiástico envolvido em um processo de separação se tornou assim sua própria antítese: um aparente passo para trás no tocante a todos os passos de reconciliação." "Me foi dito que consultar a informação disponível na internet teria tornado possível perceber o problema no início. Eu aprendi a lição de que a Santa Sé terá que prestar mais atenção a essa fonte de notícias", disse o pontífice. O papa também definiu como "outro erro" a maneira como a decisão a respeito da readmissão dos bispos conservadores foi divulgada. Ele explica que a excomunhão foi um ato de disciplina e não de doutrina, e esclarece que a fraternidade Pio X não foi totalmente reintegrada. "A fraternidade não tem uma posição canônica dentro da igreja e seus ministros, embora tenham sido liberados de punição eclesiástica (excomunhão), não exercitam de modo legítimo algum ministério na Igreja." Para que isso aconteça, a fraternidade deve, sobretudo aceitar o Concilio Vaticano 2°, que introduziu reformas modernizadoras na Igreja Católica. De acordo com o papa, isto está sendo examinado pela Congregação da Doutrina da Fé. Na carta, o papa explica que sua intenção era evitar colocar em risco a unidade da igreja. "É realmente errado ir ao encontro de um irmão que tem algo contra você? A sociedade civil não deve prevenir radicalizações e reintegrar seus aderentes para evitar segregações e suas consequências?" Segundo o papa, não é possível ficar indiferente a uma comunidade católica com 491 sacerdotes, 215 seminaristas, seis seminários, 88 escolas, duas universidades, 117 frades, 164 freiras e milhares de fiéis. "Há muito tempo e novamente nesta ocasião concreta ouvimos de representantes daquela comunidade muitas coisas destoantes, soberba, fixação em unilateralismos etc", disse o pontífice. "Devo dizer que recebi também uma série de testemunhos comoventes de gratidão. Mas não devemos admitir que no ambiente eclesiástico também surgiu alguma discórdia?" "Deploro profundamente que a paz entre católicos e judeus tenha sido perturbada, assim como a paz dentro da Igreja. O gesto discreto, de misericórdia, apareceu de repente como um retrocesso, o desmentido da reconciliação entre católicos e judeus, que desde o início foi um objetivo do meu trabalho teológico pessoal."   Visita   O papa Bento XVI visitará a sinagoga de Roma no segundo semestre, afirmou o presidente da comunidade judaica da capital italiana, Riccardo Pacifici.   "Já recebemos a confirmação verbal da visita, estamos à espera da resposta por escrito", disse Pacifici à televisão pública italiana.   A visita será realizada 23 anos depois da feita por João Paulo II ao templo judaico romano, que foi a primeira vez na história que um pontífice católico entrou em uma sinagoga.   Se realmente acontecer, será a terceira vez que Bento XVI entra em uma sinagoga, pois já havia feito o mesmo em 2005, quando visitou a de Colônia (Alemanha) e no ano passado, quando entrou em um templo judaico durante sua visita a Nova York (EUA).   A visita à de Colônia, cidade cuja comunidade foi duramente perseguida durante o regime nazista, foi muito significativa, já que era a primeira vez em um papa, nesse caso alemão, entrava em um templo judaico da Alemanha.   BBC Brasil - Todos os direitos reservados. 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