Papa pede o fim do "contraste entre luxo e miséria"

Os bispos e sacerdotes do terceiro milênio devem optar pela pobreza. Eles devem questionar a própria atitude em relação aos bens terrenos e ao uso que fazem deles. Também devem denunciar pecados sociais ligados ao "consumismo, hedonismo e a uma economia que produz inaceitável contraste entre luxo e miséria".O papa João Paulo II foi muito claro e objetivo ao traçar o perfil do episcopado que deseja para a Igreja Católica no novo milênio: ele deve se orientar pela doutrina social da Igreja.Perdão e não vingançaNa homilia que fez hoje, durante a abertura da 10ª Assembléia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos na Basílica de São Pedro, o Pontífice afirmou que o dever dos bispos é anunciar a salvação a homens e mulheres de seu tempo, "através da esperança que vem da cruz, sinal da vitória do amor sobre o ódio, do perdão sobre a vingança".Mas para que o anúncio do Evangelho seja ouvido pela sociedade é necessário seguir os passos de Jesus Cristo e "ser pobre a serviço do Evangelho" - requisito fundamental para que a mensagem seja recebida, segundo João Paulo II.Com dificuldade para falar e visivelmente cansado após a recente viagem ao Casaquistão e à Armênia, o santo padre recordou que, em sua história, a Igreja sempre esteve ao lado dos pobres. Assim, os bispos precisam defender os últimos e servir de exemplo.Doutrina socialDevem ter um comportamento destacado de interesses privados e estar prontos a ajudar os mais fracos, "ensinando e defendendo os princípios de solidariedade e justiça social que formam a doutrina social da Igreja".Esse será o tema de discussão sobre o qual os 247 bispos e cardeais dos cinco continentes vão se debruçarão a partir desta segunda-feira até o dia 27 no Vaticano. O tema da 10ª Assembléia é "O Bispo, Servidor do Evangelho de Jesus Cristo para a Esperança do Mundo".Durante os trabalhos, os bispos expõem os problemas de suas igrejas, fazem reivindicações e trocam idéias. O sínodo é uma espécie de Parlamento da Igreja com poder consultivo e sem autonomia.Representativo Apesar disso, ainda é o único organismo representativo que informa o papa sobre os problemas e as exigências dos 5.000 bispos espalhados pelo mundo.João Paulo II é o papa que mais convocou sínodos: 15 (entre ordinários e extraordinários em 23 anos de pontificado) ante a cinco convocados por Paulo VI - que instituiu essa modalidade de reunião em 1976.Segundo analistas, esse sínodo pode ser decisivo para o futuro da Igreja se forem incluídos na pauta de discussão temas como a relação entre a cúria romana e os bispos, a descentralização do poder, além do primado do papa - questão fundamental para uma reaproximação com as outras igrejas cristãs.Extraordinário Sobre esse ponto, João Paulo II já indicou sua disposição em abrir uma discussão na encíclica Ut Unum Sint. Repetiu isso pouco antes de deixar a Armênia. O secretário-geral do sínodo, cardeal Jan Schotte, não descarta a idéia de marcar um sínodo extraordinário para examinar "novas formas de exercício do primado papal".Entre os 247 participantes do sínodo há seis brasileiros. Os cardeais dom Claudio Hummes, arcebispo de São Paulo; dom Geraldo Majella Agnelo, de Salvador; dom Jaime Chemello, presidente da CNBB; e dom Luciano Mendes de Almeida, arcebispo de Mariana. O novo arcebispo do Rio de Janeiro, dom Eusebio Sheid e o bispo emérito de Santos, dom Davi Picão, foram escolhidos pelo papa.Além dos temas específicos de cada prelado e de cada região, a atual crise internacional seguramente vai estar entre os temas discutidos. "Vamos falar concretamente sobre esse momento de tensão, de escalada bélica e militar que o mundo está vivendo", confirmou dom Hummes, que colocou também a globalização e a nova ordem econômica mundial entre os principais temas de debate.

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