AP Photo/Ricardo Mazalan
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Papa receberá presidente argentino em fevereiro

Desde o segundo turno disputado no dia 22 de novembro, especialistas e fiéis argentinos lançaram dezenas de interpretações para o fato de o líder religioso não ter felicitado Mauricio Macri por ter chegado à Casa Rosada

Rodrigo Cavalheiro CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S. Paulo

28 Janeiro 2016 | 15h01

O papa Francisco receberá o presidente argentino, Mauricio Macri, no Vaticano na manhã do dia 27 de fevereiro, em uma audiência aguardada por seu peso político local. Desde o segundo turno disputado no dia 22 de novembro, especialistas e fiéis argentinos lançaram dezenas de interpretações para o fato de o líder religioso não ter felicitado o ex-prefeito de Buenos Aires por ter chegado à Casa Rosada.

 

A inferência mais comum era de que o papa não teria ficado satisfeito com o resultado. Por suas origens peronistas e por ter permitido que Cristina Kirchner se fotografasse com ele várias vezes durante a campanha, mesmo os eleitores mais católicos de Macri acreditavam que o pontífice se inclinava por Daniel Scioli, candidato da ex-presidente. O analista político Julio Bárbaro, dirigente peronista que se rebelou contra o kirchnerismo e fez campanha pela coalizão de centro-direita Cambiemos, confirmou a simpatia de seu amigo Jorge Bergoglio pelo candidato peronista.

 

As menções de Scioli ao papa em cada discurso de campanha procuravam consolidar essa imagem de "candidato do papa". Na última semana antes da votação, o marqueteiro de Macri, o equatoriano Jaime Durán Barba, disse que o líder católico "não mudava o voto nem de dez eleitores". Sua declaração foi desautorizada por Macri, que tuitou ainda "estar a favor da vida", em referência à discussão sobre a legalização do aborto. 

Durante os oito anos em que foi prefeito de Buenos Aires, Macri teve com o então arcebispo Bergoglio uma relação cordial, mas distante. Houve reclamações pontuais do religioso com relação ao governo municipal por acatar, sem recorrer, decisões em que a Justiça permitiu o casamento homossexual e o aborto em casos especiais.

Desde a posse, no dia 10 de dezembro, a chanceler argentina, Susana Malcorra, foi pressionada em entrevistas a explicar a aparente distância entre os dois chefes de Estado, em contraste com a aproximação que Francisco permitiu que Cristina tivesse após o conclave em que o levou a chefiar o Vaticano em 2013.

A resposta da diplomata era que o encontro ocorreria "em breve" e não havia problema entre as partes. No Vaticano, argumentou-se que não fazia parte do protocolo o papa saudar a eleição de um presidente, embora Bento XVI tenha feito isso com Barack Obama em sua reeleição.

Até Bergoglio tornar-se Francisco, o kirchnerismo manteve uma relação ruim com o cardeal. O conflito entre o governo K e a Igreja local começou em 2004 quando Bergoglio pregou contra a corrupção diante de Néstor Kirchner (2003-2007) na missa anual que por tradição tem o presidente. Nos anos seguintes, Néstor, morto em 2010, não foi à cerimônia. Em 2010, já com Cristina no poder, o cardal e a presidente se enfrentaram em razão da aprovação do casamento homossexual.

Nesta semana, o chefe de gabinete de Macri, Marcos Peña, afirmou que "não crer que era necessário usar o papa, nem sobreatuar", em alusão às vezes que políticos procuraram uma foto com o religioso durante a campanha. Em entrevista à rádio Canena 3, ele negou que haja ruído entre os dois. Francisco disse em março de 2015 sentir-se usado pela política. 

O encontro com papa ocorrerá três dias antes de Macri fazer o discurso que abre os trabalhos no Congresso, dia 1º de março, o governo traça metas e faz avaliações. O presidente governou até agora com decretos que dependerão de avaliação de um Parlamento em que tem minoria no Senado e na Câmara depende de peronistas  dissidentes liderados por Sergio Massa, até agora do seu lado.

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