Alejandro Ernesto/Efe
Alejandro Ernesto/Efe

Papa reforça papel mediador da igreja na abertura política de Cuba

Bento 16 chega à ilha após críticas indiretas ao regime; ativistas pedem condenação papal a violações de direitos humanos.

Fernando Ravsberg, BBC

26 Março 2012 | 17h00

Dias após fazer críticas indiretas ao regime cubano no México, o papa Bento 16 desembarcou em Cuba, nesta segunda-feira, em sua primeira viagem oficial ao país. Para analistas, a principal missão do pontífice é fortalecer o papel da Igreja Católica como mediadora junto ao governo nas negociações para a libertação de presos políticos.

Embora o regime de Cuba seja declaradamente ateu, a política atual da igreja cubana é de aproximação com o governo de Raúl Castro, irmão e sucessor de Fidel Castro.

A aproximação é um novo capítulo nas relações entre Cuba e a Santa Sé, que já passou por altos e baixos. Nos anos 1960, a tensão chegou ao ponto de o líder cubano Fidel Castro ser excomungado pelo papa João 23.

Para Enrique López Oliva, professor de religião da Universidade de Havana, a visita de Bento 16 ao país tem um caráter muito definido.

Segundo ele, o papa "vem em primeiro lugar dar respaldo à política do Cardeal Jaime Ortega" de aproximação com o governo.

A excomunhão, no entanto, não impediu que o papa João Paulo 2º visitasse o país em 1998 e que Bento 16 agora repita a viagem, 14 anos depois.

Nos últimos anos, a colaboração entre a Igreja e o Estado cubano passam por temas delicados como a libertação de presos políticos e comuns. Em dezembro de 2011, Cuba libertou quase 3 mil prisioneiros como "gesto de boa vontade", após receber pedidos de parentes e instituições religiosas.

Meses antes, em julho, o governo libertou 52 dissidentes que estavam presos desde 2003, após um acordo com líderes católicos.

Igreja ganha espaço

López Oliva afirma que "o setor da Igreja mais envolvido nas negociações domina o Episcopado Católico. Houve uma renovação com gente jovem, gente que talvez não tenha sofrido ou não tenha participado no conflito igreja-Estado nas décadas de 1960 ou 1970".

Segundo o professor, a igreja quer um maior acesso à educação e aos meios de comunicação. A instituição "já possui a única revista independente de crítica política de Cuba, a Espacio Laical, na qual escrevem acadêmicos, críticos e pessoas da Igreja".

Além disso, "o seminário de São Carlos e São Ambrósio se transformou no Centro de Diálogo Félix Varela de Cultura, onde figuras da revolução, vozes da igreja e até alguns opositores (do regime) se reúnem para debater problemas nacionais", de acordo com Oliva.

Ele acredita que estes espaços são importantes para o clero, por causa da perda de fiéis expressiva que a Igreja Católica sofreu em Cuba.

"Você vai em um domingo e as igrejas católicas estão semi-vazias ou vazias, enquanto os templos pentecostais têm tanta gente que não cabe dentro", diz.

O bispo Juan de Dios Hernandez confirma que a Igreja Católica cubana aspira "a um espaço nos meios de comunicação mais sistemático" e a "uma possibilidade no âmbito educativo", ou seja, voltar a ter escolas católicas como antes de 1959.

"Todo o espaço que a igreja consegue com este diálogo (com o governo) é um espaço também para o povo, a partir da fé. Não teria sido possível a saída dos presos (políticos) sem esse diálogo e também não teria sido possível o indulto de mais de 2 mil presos (comuns)", diz Hernandez.

O bispo participou de encontros com o Raúl Castro e o descreveu como "uma pessoa muito direta, de agenda e pontos concretos, que não dá voltas e tem um conceito operativo da vida".

"(Ele) trata de que as coisas aconteçam e não fiquem somente no discurso", afirma. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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