Papa se despede de Israel com discurso mais claro

Pela primeira vez, Bento XVI usou a palavra ?Estado? para definir a pátria palestina e, ao falar sobre o Holocausto, foi mais emocional e veemente

Daniela Kresch, O Estadao de S.Paulo

16 de maio de 2009 | 00h00

Ao se despedir da Terra Santa, após oito dias de peregrinação - que incluiu visitas a Jordânia, Israel e territórios palestinos -, o papa Bento XVI voltou adotar o tom político que tornou sua viagem polêmica. Mas, em seu último discurso, no aeroporto de Tel-Aviv, ele mediu cada palavra num texto considerado o mais diplomático da viagem. Diante do presidente israelense, Shimon Peres, e do premiê Binyamin Netanyahu, o pontífice voltou a defender a criação de um Estado palestino. Mas foi cuidadoso o suficiente para enfatizar que também defende o direito de Israel viver em paz."Que seja reconhecido universalmente que o Estado de Israel tem direito a existir e a usufruir de paz e segurança com fronteiras internacionalmente reconhecidas. Da mesma forma, que seja reconhecido que o povo palestino tem direito a uma pátria independente e soberana", afirmou. "Que a solução de dois Estados se torne uma realidade, não continue a ser um sonho", concluiu, usando pela primeira vez a palavra Estado para a pátria palestina.Usando de uma diplomacia que muitos acreditam ter faltado durante a peregrinação, Bento XVI ainda explicou que se considera amigo tanto dos israelenses quanto dos palestinos. E fez um apelo: "Basta de derramamento de sangue! Basta de terrorismo! Basta de guerra! Em vez disso, vamos quebrar o ciclo de violência."Por toda a viagem, o chefe da Igreja Católica foi categórico na defesa a um Estado palestino. Em visita relâmpago a Belém, na Cisjordânia, ele criticou o muro que Israel constrói na Cisjordânia. O pontífice também se mostrou solidário aos 1,4 milhão de habitantes de Gaza, pedindo o fim do bloqueio econômico ao território imposto por Israel e pelo Egito. Na passagem por Israel, o papa enfrentou críticas por causa de seu discurso no Museu do Holocausto. O líder do Parlamento Reuven Rivlin criticou o pontífice por, segundo ele, não ter condenado claramente os que negam a morte de 6 milhões de judeus sob o regime nazista. Mas, na despedida, Bento XVI parece ter decidido esclarecer seus pontos de vista. Usando a palavra hebraica "Shoá" para falar do Holocausto, o pontífice foi mais pessoal, emocional e veemente: "Os encontros comoventes (com sobreviventes do Holocausto) trouxeram de volta lembranças de minha visita, há três anos, ao campo de Auschwitz, onde tantos judeus foram brutalmente exterminados sob um impiedoso regime que propagou uma ideologia de antissemitismo e ódio. Esse repugnante capítulo da história não deve nunca ser esquecido ou negado."O papa também enviou mensagens de apoio à pequena comunidade cristã em solo israelense e palestino, estimada em apenas 2% dos 14 milhões de judeus e muçulmanos. Ele pediu aos cristãos que, apesar da violência, continuem morando na região tida como berço do cristianismo. Ele também apelou a cristãos e muçulmanos que convivam em paz em cidades divididas como Belém e Nazaré. O papa visitou ontem a Igreja do Santo Sepulcro, na Cidade Velha de Jerusalém.

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